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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Retrocesso

O impacto da pandemia vai para além das questões de saúde. Estruturalmente, a sociedade retrocedeu em poucos meses, o equivalente a anos de ganho, quando se analisam as relações de género e os papeis das mulheres no mundo familiar.

Perante a necessidade de ficar um adulto em casa, devido ao ensino à distância das crianças menores, reemerge a lógica “naturalizada” de que isso é tarefa da mãe. Ela tem mais “paciência”, está mais habituada a acompanhar os trabalhos de casa e, já agora, ela fica mais disponível para as tarefas domésticas que, habitualmente, realiza após chegar de um dia de trabalho no emprego. Só vantagens! Ninguém repara na injustiça desta medida e, por isso, poucos contestam este “regresso/retrocesso”, das mulheres ao lar.

Entretanto, as escolas, prescindem de auxiliares de ação educativa ou de horas de apoio. Fica tudo por conta dos pais (das mães), que têm de adaptar a casa e a vida, quando isso é possível, a mais uma rotina, o estudo online.

Mas porquê a mãe? Será que as mulheres são mais capazes de se ligar às plataformas online ou de resolver problemas de matemática e português, do que os homens/pais? Será que existe alguma razão objetiva para que os pais passem menos tempo com os filhos e sejam as mães quem deve abdicar da atividade profissional, quando os governos decretam que as crianças, em idade escolar, devem ficar em casa?

A crise económica gerada pela pandemia tem rosto feminino, como referia recentemente o Secretário Geral das Nações Unidas, António Guterres. Muitos dos empregos que estão a ser eliminados são em setores onde predominam mulheres. Os serviços, o comércio ou a hotelaria são disso exemplo. De acordo com os últimos dados do emprego nos Açores (2020), aumentou ligeiramente o emprego qualificado das mulheres, o que não é de admirar, quando 69,2% (18631) da população com o ensino superior (26906), são mulheres. Mas para cada mulher, com ensino superior, que encontrou emprego, duas mulheres com o ensino básico perderam-no, a favor de um homem.

Porquê? Porque os trabalhos que permitiram às mulheres entrar em massa no mercado de emprego são os mais afetados pela atual crise económica. E, mesmo quando são as mulheres quem detém maiores competências, para uma alternativa de emprego, o “mundo da casa” cai-lhes em cima como um “fardo natural”.

A pandemia gerada pela Covid19 está a implicar um retrocesso aos anos 80 do séc. XX e a deitar a perder quarenta anos de um lento processo de mudança. Urge que as medidas políticas de mitigação dos impactos da pandemia, corrijam esta desigualdade e protejam as mulheres da pobreza, do risco de violência doméstica e da perda de direitos profissionais.

Velhos fantasmas em torno do papel “afetivo” da mulher, do “dom natural” e da “facilidade” com que cuidam da casa e da família, estão a emergir como “razões” para justificar o “regresso/retrocesso” ao lar, e ao “sacrifício” de prescindirem da carreira profissional, nomeadamente, de lugares de liderança, conseguidos depois de muitos anos de luta e sucesso profissional.

Como refere um artigo recente do jornal “Courrier International”(Março 2021), com o confinamento, assistimos a uma “retradicionalização” das relações de género.

Regresso a casa ou retrocesso civilizacional? O futuro o dirá.

(artigo publicado no jornal Açoriano Oriental de 30 março 2021)

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