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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Pessoas de estufa

Há cada vez mais crianças com “debilidade imunitária”, referem os especialistas da medicina pediátrica, confrontados com um número alarmante de internamentos de crianças em idade escolar, por problemas respiratórios.

Sujeitas ao confinamento nos últimos dois anos, ao uso de máscaras e desinfetante, as crianças, sobretudo as que têm agora dois e três anos, foram privadas do contacto com agentes patogénicos, em particular o vírus sincicial respiratório, como referiu o pediatra Caldas Afonso ao jornal Expresso (30.07.21). Vírus que, habitualmente, se apanha no primeiro ano de vida, contribuindo para o reforço da imunidade das crianças.

Hoje, vemos muito mais crianças sem defesas. Por isso, quando regressarmos à “normalidade” estarão muito mais vulneráveis a contrair “tudo e mais alguma coisa”, como também refere o imunologista Mário Morais de Almeida (Expresso, 30.07.21).

Estamos a criar “plantinhas de estufa”, mas não é apenas do ponto de vista imunológico, sem defesas contra vírus ou resistência às doenças e infeções em geral.

Simultaneamente, estamos a criar crianças “mais vulneráveis e medrosas”, sem defesas contra a mentira, o abuso de poder, a incerteza ou insegurança.

A imagem da “mamã galinha”, agora também reforçada por outros tantos “papás-galinha”, faz temer uma sociedade em que a autonomia é adiada ou até temida. Protegidos no universo doméstico, centrados no digital, as crianças, que nasceram nos últimos dois anos, terão de recuperar muitas décadas de ganhos e avanços, quer do ponto de vista imunológico quer, sobretudo, do ponto de visto psicossocial e emocional.

“Plantas de estufa”, ou “pessoas em estufa”, estão a tornar-se os idosos, sobretudo, aqueles que vivem em estruturas residenciais. De início isolados, de qualquer contacto com a família, por serem os mais vulneráveis, foram depois prioridade para a vacinação. Mas, mesmo assim, as regras das instituições, que os acolhem, parecem não se terem alterado. Preocupados com o risco de casos de morte, numa população com setenta ou mais anos, as instituições mantiveram, praticamente fechados a “sete chaves”, os seus residentes. Resultado? Passados dois anos, degradou-se a sua saúde mental nesta população institucionalizada, aumentou o medo da morte e desvaneceu-se a esperança de poderem voltar a ver, tocar e sentir, por perto, os familiares, particularmente os netos, que só veem através de um telemóvel, quando tal é possível.

Estamos a criar “pessoas de estufa”, entre os mais novos e os mais velhos. E essa condição pode comprometer, durante anos, o futuro da nossa sociedade.

Quando tivermos pensado que terminou o combate ao vírus biológico, e pudermos voltar a sair sem máscara, teremos outro combate bem mais profundo e prolongado, o de recuperar a saúde mental e, em particular, o sentimento de confiança no outro. Será que está infetado? Poderei falar com uma pessoa, desconhecida, que não usa máscara?

Com as mãos “super” higienizadas, desinfetadas a toda a hora, vão-se as defesas, mas sobretudo, fica o medo de contactar o mundo, mexer na terra e nos animais, dar abraços e utilizar equipamentos comuns, desde o banco do autocarro, ao terminal do multibanco.

Urge pensar a transição para uma vida normal. Diagnosticar os problemas, entretanto criados, e preparar o processo de regresso à normalidade de forma faseada.

Estamos todos mais vulneráveis, no corpo e na mente. Por isso, há que pensar a melhor forma de, aos poucos, retirar as “pessoas da estufa”, para de novo as fazer crescer “ao ar livre”.

(Artigo publicado no Jornal Açoriano Oriental de 3 de agosto 2021)

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