Resiliência
Considera-se uma pessoa resiliente? É possível que não saiba responder a esta pergunta, porque primeiro teria de saber o que significa resiliência. Este é um conceito, relativamente novo, cada vez mais presente na linguagem comum, introduzido pela Psicologia para definir a capacidade de um ser humano de resistir ao choque, à adversidade. Mas então, porque não dizemos “resistência”?
A resiliência aprende-se com a própria adversidade, descobre-se na medida em que se vivem perdas, fracassos, deceções e desilusões. E são estas experiências que contribuem para criar “calo”. São como as bolhas que se ganham ao pegar no sacho pela primeira vez e que depois se tornam em calos. Ao fim de algum tempo deixam de doer, tornam-se resistentes ao esforço.
Na vida, como no trabalho, há muitas situações que nos fazem “bolhas” e que depois se tornam em “calos”. Se não estivermos disponíveis para aprender com a adversidade, com as dificuldades que nos derrotam, mas nos ensinam, nunca seremos resilientes.
Não é resiliente quem está convencido de ter todas as “armas” para “resistir” à adversidade e que esta dificilmente o atingirá. Engane-se quem assim pensa. Um dia, faz um exame médico e descobre um problema grave de saúde; a empresa que construiu uma vida inteira perde lucros de forma avultada; alguém que era o seu porto de abrigo, morre. É como perder “o chão”. Mas é possível renascer, recomeçar, quando se faz das fraquezas forças, se aprende com as perdas e se toma consciência do que é possível fazer, para evitar ou ultrapassar as dificuldades vividas. Isso é ser resiliente.
A resiliência é uma qualidade, de quem encara o futuro, aprendendo com o passado.
A palavra Resiliência surge na designação do próximo Plano plurianual de investimentos para Portugal, financiado com verbas europeias: Plano de Recuperação e Resiliência. Se a palavra Recuperação é de fácil entendimento, é provável que o mesmo não aconteça com Resiliência.
Será que os governos e as entidades, que vão beneficiar desses financiamentos, estão dispostos a aprender com o passado e a diagnosticar o que vale a pena continuar a fazer e o que é preciso corrigir? Por exemplo, se o dinheiro destinado aos Açores, for para abandonar o que está bem feito, porque foi decidido por outros, e começar do zero, como se não houvesse passado, de nada vão servir os milhões de investimento. É como andar na areia! Estaremos sempre, ou quase, no mesmo lugar.
Ser resiliente é ganhar tempo, não cometer os mesmos erros e potenciar as aprendizagens adquiridas com a experiência passada.
Não podemos desperdiçar oportunidades. O tempo voa e o ritmo da mudança está longe da nossa capacidade de compreensão, se não agarrarmos o essencial, os valores que promovem desenvolvimento, esquecendo protagonismos pessoais ou partidários, que levam sempre a escolhas interesseiras.
A resiliência é essa qualidade de que fala o provérbio: “o frade, não leva três em capelo”, que nos lembra a necessidade de aprender com a experiência e não cometer os mesmos erros, mais do que duas vezes.
E, duas vezes, pode ser muito! A vida nem sempre dá três oportunidades para repetir. Fracassar ou perder não é um problema; não o reconhecer e não ficar mais forte depois, isso sim, pode comprometer a aprendizagem da resiliência.
Será que agora acha que é uma pessoa resiliente?
(texto publicado no jornal Açoriano Oriengal de 13 setembro 21)