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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

A proximidade perdida

As medidas sanitárias têm vindo a ser aligeiradas. Agora o uso de máscara já não é obrigatório em espaços públicos, particularmente quando circulamos na rua, distantes de outras pessoas. É possível estar a ver um jogo de futebol ou sentado num auditório a menos de três metros das outras pessoas. Mas, será que encurtamos essa distância na forma como olhamos ou nos relacionamos com os outros?

Ainda esta semana, andava eu na rua sem máscara, quando surgiu alguém, em sentido contrário que, logo que me viu, se afastou, passando para o meio da rua, para assim não ter de partilhar o mesmo chão que eu pisava. A mesma sensação de estranheza tenho sentido, quando revejo pessoas, que há muito não via. Fica uma hesitação: será que beijo ou não, estendo a mão ou encosto o punho, o cotovelo? Acabo por esperar a reação do outro, fixar nele os olhos emocionados de alegria e deixar o cumprimento mais íntimo na algibeira.

Boaventura Sousa Santos descreve magistralmente sobre o abraço (Jornal de Letras, outubro), como pode ser terapêutico e, sobretudo, como é uma expressão carregada de emoção e que caracteriza os latinos, mais as mulheres do que os homens, mas que, transforma a nossa solidão em presença, os nossos afetos em relação. E, ao fim de tantos meses, para alguns, quase dois anos, sem esta prática de contacto físico, íntimo, nas saudações, acabamos por, até com os nossos mais próximos, evitar esses beijos emocionados, seguidos de abraços apertados onde encerramos o corpo do outro contra o bater do nosso coração.

As nossas relações estão assepsiadas, desinfetadas como as mãos, e isso tem um efeito enorme na qualidade da comunicação que estabelecemos entre nós. Ficamos fechados nessa “bolha” de proteção, receando o contágio, incapazes de respirar em frente dos outros, por medo do Covid19, porque os números, pequenos ou grandes, continuam a fazer parte dos noticiários. E, a última coisa que queremos é ser mais um ou fazer parte dessa cadeia.

A pandemia até pode passar, mas a sociedade não ficou a mesma. As nossas relações ainda não recuperaram do impacto que as medidas restritivas criaram e ainda criam. Não se imagina como é difícil e esgotante, dar aulas de máscara na cara, ter de elevar o tom de voz, aprender a ler, nos olhos dos alunos, a atenção por vezes tão difícil de captar.

Não vamos ser os mesmos, depois desta experiência prolongada que afeta o modo como comunicamos e nos aproximamos de quem nos rodeia. Mesmo não sendo obrigatório, ficou o receio de abordar alguém sem recorrer à máscara, como defesa contra algo, que não vemos, mas que receamos poder nos prejudicar.

O mundo não será o mesmo! Felizmente, nem tudo serão mudanças negativas.  Há quem tenha descoberto, por força do teletrabalho, que a vida não é só profissão, a família conta e as crianças precisam do pai, a saúde mental precisa de Natureza. No futuro, talvez as empresas introduzam mais flexibilidade nos horários, incorporando o teletrabalho na concretização dos seus objetivos, valorizando o espaço da vida pessoal e familiar.

O mundo mudou, as distâncias entre nós também, mas será que estamos a descobrir o que nos faz ser humanos, pessoas equilibradas? Sem afetos, será difícil.

Temos de nos reconciliar com o prazer de estarmos juntos e reaprender a viver, próximos e sem medos! Isolados, sós, corremos o risco de morrer!

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 12outubro 21)

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