Agradeça ao Plano Nacional de Vacinação
Muitos se questionam se as vacinas devem ou não ser obrigatórias.
Portugal há muito que consegue níveis elevados de vacinação da população, sem que o Plano Nacional de Vacinação seja “obrigatório”. Simplesmente, uma larga maioria dos portugueses reconhece que, sem vacinas, teríamos hoje muitas mortes por causas que, entretanto, foram debeladas, como a varíola, o sarampo, a papeira, ou ainda a poliomielite, a meningite C, o tétano e a tosse convulsa.
Com o Plano Nacional de Vacinação, iniciado em 1965, o país conseguiu controlar doenças evitáveis que, de outro modo, teriam contribuído para a mortalidade precoce.
Há quem se ache no direito de escolher não ser vacinado, como aconteceu com os tenistas Novak Djokovic (Sérvio) e Renata Voracova (Checa), que foram impedidos, recentemente, de participar em provas de ténis na Austrália.
Quem agora escolhe não se vacinar contra a Covid, esquece-se que, em criança, os seus pais também fizeram uma escolha. E se hoje estão vivos, bem podem agradecer às vacinas que receberam na infância e o protegeram de doenças, que outrora mataram milhares de crianças e adultos.
Todos reconhecemos que esta luta contra a Covid está longe de ser perfeita. O mundo foi apanhado “na curva” e teve de acelerar o processo de criação de uma vacina eficaz. Hoje, os governos são obrigados a dar ouvidos à investigação científica, para ajustar a estratégia de proteção das populações, ao conhecimento que vai sendo adquirido.
Mas não estamos apenas perante uma questão de saúde pública.
A covid19 trouxe a oportunidade para refletirmos sobre muitos outros domínios, desde o trabalho às relações familiares, da qualidade da alimentação à prática de atividade física. Muitos de nós não julgávamos estar a descurar a qualidade das nossas vidas e não imaginávamos o quanto podíamos estar vulneráveis, não fosse o impacto da pandemia.
Nos últimos dois anos, muito se tem falado, escrito e investigado sobre saúde mental, vida familiar, afetos e fragilidades do ser humano, neste quadro de condicionamento que limita as relações interpessoais e apela a novas competências comunicacionais. As estatísticas dos últimos anos mostram reduções na atividade económica ou na natalidade e fazem-nos pensar no que queremos para o futuro. Quais são as lutas que vale a pena protagonizar? Onde devemos investir a nossa energia e atenção? Não será negando a eficácia das vacinas que construiremos um mundo melhor. As evidências demonstram que os doentes de Covid, que foram internados ou estão em cuidados intensivos, são maioritariamente não vacinados.
É importante que os cidadãos se manifestem, sim! Porque a sociedade em que vivemos não é justa e está longe da perfeição. Mas quais as batalhas que estão ao nosso alcance empreender? Talvez devêssemos ser mais proactivos na redução das emissões de carbono ou na poluição do meio ambiente, na prática da reciclagem ou na redução do desperdício. Essas parecem ser lutas com impacto no futuro. Em que tipo de sociedade queremos viver? Será que investimos energia suficiente em ações solidárias, contribuímos para fazer comunidade, a começar na nossa família, passando pela empresa ou pela escola?
Pena é que a investigação não consiga criar uma vacina, essa sim obrigatória, contra a indiferença, o comodismo e o egocentrismo.
(artigo publicado no jornal Açoriano Oriental de 18 janeiro 2022)