Cativar professores
Há um lado sombra na vida de um professor, nem sempre valorizado. Dificilmente um docente chega a casa e desliga o computador, porque um estudante enviou um email a pedir ajuda, há um relatório a entregar, um plano de ação a definir, um projeto para candidatar, por vezes dezenas ou centenas de testes individuais ou trabalhos de grupo a ler e avaliar.
Por isso, importa olhar particularmente para os professores, de quem também depende o sistema educativo. Uma população cada vez mais envelhecida. Entre 2010 e 2019 (Pordata), o envelhecimento da classe docente aumentou dez vezes. E, se consultarmos o relatório do Conselho Nacional de Educação (2020), no ano letivo 2019/20, 45,8% dos professores do ensino superior tinha idades superiores a 50 anos e apenas 4 %, menos de 30 anos, valores ainda mais elevados na educação de infância e no ensino básico.
Conclusão, a profissão de docente é cada vez menos atrativa. Alguns se questionarão porquê, se o horário de trabalho não ultrapassa as 22 horas de contacto com os estudantes, no ensino básico e é de 6h a 12 horas semanais, para um professor do ensino superior.
A questão não está nas horas de contacto, mas no trabalho que um professor tem de desenvolver na sombra desse horário. Estudar, preparar aulas, corrigir testes e trabalhos, orientar projetos de investigação e, não raras vezes, estar disponível para motivar e esclarecer, em situações de dúvida. Tarefas que consomem muito do tempo pessoal, algumas com prazos limite, outras realizadas com o sentido de serviço, principal dimensão que justifica a atividade de ensinar.
Ainda recentemente, Maria de Lurdes Rodrigues, reitora do ISCTE (Jornal Expresso 11.02.22), apontava a falta de incentivos na carreira docente do ensino superior. Um professor pode chegar à idade da reforma, sem sair da categoria mais baixa da carreira. O tempo não conta, o número de estudantes que leciona é indiferente. Pode lecionar turmas de dez estudantes ou de cem, e não é menos ou mais remunerado por isso, apesar do volume de trabalho suplementar ser bem diferente.
De acordo com um estudo da Federação Nacional de Educação (2016), 23% dos professores sofria de stress agudo. Particularmente no ensino básico, a indisciplina, o número elevado de alunos por turma, a burocracia, sem esquecer os problemas com a voz, são algumas das causas.
Se, por um lado, o país regista um aumento da taxa de escolarização, por outro, o número de professores tem vindo a diminuir. Entre 2010 e 2019, saíram 10% do ensino superior e 16,7% do ensino básico (Conselho Nacional de Educação, 2020). E, sem professores, dificilmente se conseguirá continuar a melhorar os indicadores da educação. Recentemente, os governos do país e da região congratularam-se com a redução da taxa abandono escolar precoce, que avalia a percentagem de jovens entre os 18 e os 24 anos que não completou o secundário. Entre 2011 e 2021, Portugal passou de 23% para 5,8% e a RAA de 43,8% para 23,2%. O país ficou abaixo da meta europeia (10%) o que, infelizmente, ainda não aconteceu na RAA.
Não se obtêm resultados escolares sem professores, preferencialmente, motivados e reconhecidos pela importância do seu contributo, na construção de uma sociedade mais qualificada. Por isso, há que cativar docentes!
(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 15 fevereiro 2022)