São Jorge
A ilha mais estreita do arquipélago dos Açores tem nome de santo. Na iconografia, São Jorge é representado em cima de um cavalo branco, dominando um dragão com a sua lança. Reza a lenda, terá morto um monstro que aterrorizava as gentes de uma cidade do norte de África.
Hoje, os habitantes da ilha de São Jorge estão sentindo o “dragão” que dorme no centro da terra e que, de quando em vez, a faz estremecer.
Já não estamos nos anos 200, nem a história das catástrofes se conta sob a forma de lendas. São realidades factuais que as ciências estudam. A relevância deste conhecimento vem comprovar a necessidade de investimento na investigação, nem sempre reconhecido pelos poderes públicos ou mesmo pelas entidades privadas, sedentos de resultados rápidos, soluções imediatas, que não se coadunam com os prazos e os requisitos da metodologia científica.
A ciência, nem sempre consegue dar toda a informação, acessível e credível, que gostaríamos. Mas isso só prova a relevância da investigação acumulada, a necessidade da recolha e análise continuada dos fenómenos.
Ainda bem que, na Universidade dos Açores, há quem se dedique ao estudo da vulcanologia e sismicidade. Nesta hora de crise em São Jorge, quando o “vulcão/dragão” estremece debaixo dos pés dos seus habitantes, sobretudo nas Velas, não fora a informação credível, não seria possível prevenir ou acionar os planos de emergência, nem preparar e antecipar os cenários futuros.
Podemos continuar a evocar São Jorge, que foi torturado até à morte por defender os cristãos, exemplo de fé e tenacidade. Mas, não podemos deixar de ficar gratos pelo conhecimento humano. As ciências não são magia. Continuamos, na geologia/vulcanologia, como em muitos outros domínios, sujeitos ao imponderável e à incerteza, mas estamos cada vez melhor preparados para os enfrentar.
Coube, a quem reside nos Açores, cuidar destas ilhas vulcânicas, lugar de excelência natural, com terrenos férteis, águas de nascente, fundos do mar ricos e um clima ameno. Dizem que estamos habituados aos sismos, não é verdade! Temos é consciência de que a terra que pisamos está viva, como aliás em todo o resto do planeta. A história das falhas sísmicas não é uma prerrogativa açoriana, por exemplo, afetou recentemente o Japão e a Indonésia e destruiu Lisboa no século XVIII.
A terra não é um planeta morto, talvez guarde “dragões” no seu seio, mas sobretudo, é cada vez menos desconhecida e isso, devemos às ciências e ao conhecimento da experiência acumulada.
Quem “previne, vale por dois”, diz o ditado. Por isso, temos de ser rigorosos nas técnicas de construção dos edifícios; evitando riscos e, sobretudo, respeitando a “mãe” natureza.
Quando Vila Franca foi assolada por terramotos, no séc. XV, o povo entendeu ser a “mãe terra” a manifestar-se contra os pecados dos homens e daí nasceram as romarias como forma de penitência e pedido de clemência. Hoje, para respeitar essa “mãe terra”, a forma como vivemos, conta; o investimento no saber da ciência é fundamental; e o espírito de solidariedade e entreajuda, é essencial para fortalecer as comunidades e, de forma organizada, enfrentar os impactos das manifestações naturais, quando não as podemos controlar.
Que nunca nos falte a tenacidade e a fé, a exemplo de São Jorge.
(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 29 março 2022)