Incerteza, dúvida e desesperança....
Três palavras, carregadas de pessimismo, que causam infelicidade.
Inverter o seu sentido exige uma luta diária, um esforço contínuo, qual Sísifo carregando a pedra, montanha acima.
Como fazer? Como ser feliz num contexto tão incerto?
O século XXI tem-nos colocado à prova. Quando julgávamos que as guerras eram coisa do passado, a energia uma conquista sem retorno e as doenças, um desafio que a ciência acabaria sempre por vencer, fomos confrontados com “novos imperialistas”, pandemias virais, dificuldades políticas que bloqueiam a autonomia energética e até a sobrevivência de alguns países ou falta de mão-de-obra em setores cruciais para o desenvolvimento económico.
Incertezas, dúvidas e desesperanças, não são sinais de insucesso, mas encruzilhadas que nos obrigam a repensar o caminho a percorrer. Sem deixar de olhar para o retrovisor da vida, os tempos que vivemos exigem escolhas diferentes, que respondam não só às dúvidas de hoje, mas permitam tocar a felicidade.
E o que constrói a felicidade das pessoas e das nações?
Segundo o Índice Mundial da Felicidade, para além de um elevado nível de rendimento, é fundamental garantir uma rede de suporte social, a expectativa de uma mais saúde, liberdade para fazer escolhas de vida, sentimentos de generosidade e uma administração não corrupta, que respeite regras, seja profissional e exigente no cumprimento dos princípios da justiça e do bem-fazer.
Segundo o índice da Felicidade das Nações Unidas, em 2022 os cinco países mais felizes são a Finlândia, Dinamarca, Islândia, Suíça e os Países Baixos. Apesar da melhoria registada desde 2013 (85ª) Portugal ocupa o 56º lugar numa tabela de 146 países.
Estamos longe da Felicidade, porque resistimos a melhorar o rendimento dos portugueses. Mesmo quando há falta de mão-de-obra, como tem acontecido ultimamente, os salários continuam baixos. Na proteção social, há sempre vozes críticas contra as medidas de combate à pobreza e, no domínio da Saúde, abundam erros de planeamento e falhas nas respostas às necessidades dos utentes.
Segundo o índice mundial, a Felicidade não depende apenas dos sistemas estruturantes da sociedade (economia, saúde, proteção social), mas passa pela qualidade das relações humanas. Por isso, urge valorizar a generosidade como valor de referência, aumentar a capacidade de bem-servir, elevar o nível de honestidade e a transparência no respeito por critérios e procedimentos. Infelizmente, quando julgávamos ter ultrapassado velhas práticas de favorecimento, ouvimos alguém dizer que só “quem tem padrinhos é que se batiza!”.
A infelicidade, que os portugueses parecem mostrar, está diretamente relacionada com a sua incapacidade de lidar com a incerteza, a dúvida e a desesperança.
Se queremos ser mais felizes, então temos de construir uma sociedade mais justa e menos corrupta. Não podemos achar que tudo se resolve com improvisos, descurando o “profissionalismo” no desempenho das nossas atividades, da mais simples à mais complexa. Temos de acabar com a velha prática do facilitismo e dos jeitos aos amigos! Precisamos de confiar em quem nos quer ajudar e imprimir mais generosidade às relações que estabelecemos com os outros.
Ser feliz não significa vencer a incerteza ou a dúvida, mas conseguir não sucumbir perante a inevitabilidade da sua existência....
texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 16 de agosto 2022