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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Casar em Agosto

Há cada vez menos casamentos e, quando acontecem, é frequente os casais viverem em união de facto antes, podendo mesmo terem sido pais. Ao contrário do que se dizia no passado, hoje é perfeitamente possível um filho dizer que “esteve no casamento dos seus pais”.

Longe vão os tempos em que “casar em Agosto era sinónimo de desgosto”, uma rima que associava este período do calendário agrícola, à infertilidade e infelicidade e, segundo reza a história, estava associada ao facto de, na época das grandes navegações portuguesas, ser este o mês em que os marinheiros partiam nas caravelas, rumo ao desconhecido “novo mundo”.

Hoje, esta superstição deixou de pesar na escolha da data de casamento e, estatisticamente, Agosto passou a ser um dos meses onde acontecem mais casamentos.

Esta não é certamente a única alteração que marca o casamento, enquanto contrato conjugal. Os casais adiam, cada vez mais, a decisão de formalizar a sua união, aumentando, por consequência, a idade média no 1º casamento. Em 2020, ultrapassava os trinta anos, para homens (Portugal 34,9 anos; Açores – 32,4 anos) e mulheres (Portugal – 33,4 anos; Açores – 30,6 anos).

Apesar de todas as alterações registadas na vida conjugal, reflexo de uma ponderação faseada do compromisso, a cerimónia de casamento continua a reproduzir a tradição. A boda continua a estar associada à visibilidade pública do compromisso conjugal. Um acontecimento “fantasiado”, onde não faltam os ritos do passado: o cortejo, a noiva levada pelo braço do pai até ao “altar”, o branco do seu vestido, o véu que se destapa na cerimónia, o atirar do ramo e/ou da liga, o corte do bolo e a primeira dança, são traços de uma cerimónia que, recuando no tempo, simbolizava a união entre duas famílias e estava associada à saída da casa paterna e ao início de uma vida em comum.

Os tempos mudaram, mas os rituais parecem guardar a força da coesão cultural, a ligação a um sentido coletivo da própria identidade. Carregada de simbologia, a celebração festiva do casamento estrutura um acontecimento que, mesmo para quem anteriormente vivia em união de facto, significa compromisso público, assunção de uma decisão perante a família e os amigos.

Seriam “desnecessários”, mas permanecem os pedidos de casamento, as despedidas de solteiro/a e as viagens de lua de mel, mesmo para quem há muito partilha casa, cama e mesa.

As transições familiares sempre foram acontecimentos com forte significado na vida das pessoas e das comunidades, por isso são ritualizados. O rito organiza um tempo de incerteza, esse limbo do ser ou não ser, estrutura a passagem de uma condição a outra, segundo um modelo/padrão conhecido e tradicional. A repetição desses rituais favorece uma maior integração comunitária, aproxima as famílias e confere sentido coletivo a acontecimentos pessoais e privados, como são nascer, casar ou morrer. Não poder viver esses acontecimentos foi, por ventura, uma das principais perdas impostas pelas medidas sanitárias, durante a pandemia do Covid19.

Agosto é hoje um mês das férias, período em que se intensificam a mobilidade das populações e as reuniões de família e amigos. Por isso, nada melhor do que este mês para celebrar festas familiares e juntar os amigos, numa festa de casamento.

Casar em Agosto já não traz desgosto, porque se casa por gosto.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 30 de agosto 2022)

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