Em defesa da dignidade
Tem-se falado muito de pedofilia, na sequência das denúncias que estão a ser analisadas na Comissão Independente para o Estudo de Abusos Sexuais contra crianças na igreja católica, entre 1950 e 2022.
“Dar voz ao silêncio” é o nome do acesso online que recebe as denúncias de quem, em algum momento da sua vida, foi vítima de abuso sexual. O silêncio encobre histórias dramáticas, não apenas de quem foi abusado por um membro da Igreja, mas de muitas outras pessoas, que foram ou ainda são vítimas, em contexto familiar, de comportamentos abusivos de adultos, que era suposto serem educadores e a quem foi confiada a proteção de uma criança.
Como todos os crimes que atentam contra a integridade da pessoa, onde se destrói a autoestima e estilhaça a dignidade, o tempo não apaga as marcas deixadas, enterradas em sentimentos de culpa e vergonha. Dar voz ao silêncio é recuperar o valor da dignidade humana.
“Pedofilia” é um termo da psicopatologia, cada vez mais presente na linguagem do cidadão comum que toma consciência de uma realidade obscura, escondida e violenta, que deixa marcas, algumas nunca verbalizadas, outras denunciadas ao fim de décadas de sofrimento silenciado. A vergonha, o medo, ou os sentimentos de culpa, enterram as piores memórias, deixando espaço para que os agressores/abusadores continuem as suas práticas sem serem denunciados.
A pedofilia é um comportamento sexual perturbado de adultos, homens ou mulheres, solteiros ou casados que, conscientemente, abusam de crianças com menos de 13 anos, em contextos educativos, familiares, desportivos ou outros, onde era suposto serem protegidas. É um comportamento criminoso, sancionado pela lei, que envolve o “não-consentimento” da vítima, a sua incapacidade e fragilidade e, em muitos casos, a relação de dependência e de confiança, que mantinha com o abusador.
De acordo com as https://estatisticas.justica.gov.pt/, São Miguel é uma das regiões do país com maior número de casos. Em média, e segundo os últimos dados publicados, são registados na R. A. Açores, uma média de 100 casos por ano.
Por muito que os números possam incomodar, e incomodam, por refletirem uma realidade que atenta contra a dignidade da pessoa humana, também são sinónimo do trabalho dos técnicos e entidades responsáveis, atentos à proteção dos menores, na defesa de uma sociedade que não tolera práticas contra os direitos das crianças.
Em boa hora, a Igreja católica decidiu, com coragem, desenterrar este baú que, como referiu o Papa Francisco, envergonha a comunidade dos crentes. Infelizmente, há ainda vozes, dentro desta igreja, que preferem o silêncio, a paz podre, os “brandos costumes” de quem tudo cala, assume culpas alheias e ainda beija a mão de quem o agride.
Mas, se este exercício de “abertura” e “denúncia” na Igreja é importante, não menos necessária é uma sociedade que não vacile na tomada de consciência de que a pedofilia acontece em relações familiares, ou outras, e é protagonizada por quem está próximo das vítimas. São educadores, professores ou treinadores, vizinhos ou amigos da família que, no silêncio, destroem a integridade de menores e violam a sua dignidade.
A dignidade é um valor coletivo, apenas defensável, quando todos nós temos dela consciência e agimos em consequência, na sua defesa.
(texto publicado no Jornal Açoriano Oriental, 26 de outubro 2022)