Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Direitos Humanos e Futebol

As seleções nacionais, seja qual for a modalidade, são sempre o rosto de um país. Carregam as cores da bandeira do povo que representam e, não raras vezes, provocam um entusiasmo genuíno que unifica adeptos e gera emoções coletivas, recuperando o espírito patriota, às vezes adormecido. Essa emoção coletiva faz esquecer as mágoas pessoais e os problemas quotidianos, superadas pela esperança de vitória nos jogos. Pode-se simpatizar com outras seleções, mas dificilmente alguém veste a camisola e empunha a bandeira de um outro país, que não o seu, quando nem conhece a língua ou o território, como está a acontecer no Mundial de Futebol 2022, a decorrer no Qatar, onde tudo se compra, até adeptos figurantes.

O país conseguiu, ou comprou, a realização deste evento, apesar de a modalidade desportiva mais popular no Qatar ser o críquete. Aliás, ficou bem evidente no jogo inaugural onde, pela primeira vez num Mundial, a equipa anfitriã perdeu.  

Mas o Qatar conseguiu, porque o dinheiro falou mais alto. Transformaram areias do deserto em oásis de luxo e construíram majestosos campos de futebol, que custaram a vida a milhares de trabalhadores migrantes.

Muitos se questionam como pôde a FIFA atribuir a organização do Mundial ao Qatar, onde não se respeitam os direitos humanos, se criminaliza a homossexualidade e desrespeita os direitos das mulheres.  Um país onde a maioria de residentes são migrantes, indianos, nepaleses, das Filipinas e do Bangladesh, do Paquistão e do Siri Lanka, que trabalham na construção civil e no serviço doméstico. Apenas 11% da população do Qatar tem direito ao passaporte catarino e 30% da riqueza do país, está nas mãos de 1% da população.

Se há mérito nesta organização é o facto de trazer a público a realidade deste país, até agora mais conhecido pelo seu lado brilhante.  

Poderia pensar-se que o fervor pelas seleções anestesiaria as consciências, como pareceu sugerir o presidente da República quando afirmou: esqueçamos os direitos humanos, apoiemos a seleção. Ou que a história de milhares de anos justificaria a injustiça no século XXI, como quis defender o presidente da FIFA alegando hipocrisia, do mundo ocidental. Foi para combater esses lapsos de memória, que há 74 anos foi escrita a Carta dos Direitos Humanos, a 10 de Dezembro de 1948.  Para que nunca mais esqueçamos ou secundarizemos, os atentados contra a Dignidade. É disso que se trata, é o valor da Dignidade que está em causa, essência da própria condição humana. Um valor que não se vende, nem se compra, e tem custado a vida a muitos cidadãos no mundo, vítimas de ditadores e agressores, numa luta desigual onde há quem ainda esteja convencido que pode abafar a sua culpa com poder ou dinheiro.

O mundo não ficou igual depois da IIª Guerra Mundial. Ainda não conseguimos nos unir em defesa do bem comum, como ficou mais uma vez evidente na Conferência do Clima, mas estamos certamente mais conscientes do que não está correto e falta fazer, para que o mundo seja realmente mais justo e pacífico.

Não é utopia fazer a defesa dos direitos humanos, perante o Mundial de futebol, a invasão da Ucrânia ou a lutas das mulheres iranianas. A dignidade não permite parêntesis ou exceções.

Viver é um bem escasso, provisório e vulnerável, essencial e manipulável; um traço a carvão numa tela em branco, um desenho na areia que o mar desfaz na maré. Mas, se não lhe dermos corpo e sentido, perdemos o essencial da vida, a dignidade humana.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 22 novembro 22)

Tv, sangue e lágrimas

Há horas de emissão televisiva, em certos canais nacionais, em que, se espremer o écran, sai sangue e lágrimas.

Sentada numa sala de espera de um espaço médico, a televisão, mesmo sem som, surge como uma janela aberta sobre o lado mais negro das vidas. São crianças esfaqueadas e desfiguradas por quem as devia proteger, avós que morrem às mãos de um neto toxicodependente, mulheres assassinadas pelos ex-maridos, assaltos à mão armada, roubos e violações. Pode escolher na lista dos crimes mais horrendos, passam todos, com reportagem em direto do local. Se puderem, mostram imagens desfocadas de telemóveis mas, na certa, irão perguntar às vizinhas se ouviram os gritos ou conheciam as vítimas.

Não bastando o sangue e a violência, estes canais convidam “especialistas” para fazerem a análise e o julgamento da situação, carregando na tecla da culpabilidade, do medo, da insegurança e da violência. Fazem diagnósticos, formulam juízos e analisam o perfil psicológico dos agressores e das vítimas.

Alguns dirão, mas há auditório! Pois, é um facto, até nas salas de espera dos centros médicos, estes canais ocupam o tempo, envenenando as vidas com sentimentos negativos: medo, ansiedade e ódio. Não se conhecem as histórias positivas, que dão sentido à solidariedade e constroem relações de comunhão e partilha, como o caso de um filho que cuida da mãe acamada ou da família que acolhe um sem-abrigo. Mas sabe-se da mãe que matou a filha ou do padrasto que molestou a enteada.

E quem é o auditório médio destes programas televisivos?

Um estudo recente, realizado pelo Instituto de Ciências Sociais da U. Lisboa e financiado pela Gulbenkian (2020) revela que 90% dos portugueses vê televisão diariamente, um valor acima da média europeia (81% em 2019). Quem é que vê mais televisão?

As pessoas com menos rendimentos, as com mais idade (que veem cerca de 5 horas por dia) e mais mulheres que homens.

Um outro estudo, canadiano, associa o agravamento de problemas de saúde mental em quem está mais tempo diante de um écran.

Agora juntemos as duas realidades: populações mais vulneráveis, idosas, diante de uma televisão que mostra o lado mais negro da vida em sociedade, onde o risco de ser assaltado ou maltratado entra pelo écran como uma evidência, uma realidade que pode estar ao virar da esquina!

Sabemos que, no caso das crianças, demasiado tempo diante dos écrans, perante imagens de violência e agressão, pode levar a sentimentos de medo e angústia, perturba o sono e distorce a própria realidade da morte, como acontecimento humano. No caso dos idosos, um estudo recente, conclui que “quanto mais tempo pessoas, com 60 ou mais anos, passarem a ver televisão, maior é a probabilidade de desenvolverem demência (40%)” (Sic Notícias, 25.08.22)

E quantas salas de “convívio” de Estruturas Residenciais Para Idosos, “ocupam” os seus residentes com um écran de televisão aberto, para programas sobre crimes e violência gratuita?

Promover a saúde mental não é utopia!

Todos nós, mais ou menos jovens, devemos procurar introduzir na prática diária, mais atividades ao ar livre, exercício físico, convívios e novas aprendizagens.

A televisão, principal meio de ligação ao mundo nas casas dos portugueses, tem de fazer a sua parte, sem ser demasiado “cor-de-rosa” ou “fatalista”, deve entreter, informar e motivar.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 13 setembro 22)

Mais sobre mim

imagem de perfil

Visitantes

Arquivo

  1. 2025
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2024
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2023
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2022
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2021
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2020
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2019
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2018
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2017
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2016
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2015
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2014
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2013
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2012
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2011
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2010
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2009
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2008
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D
  235. 2007
  236. J
  237. F
  238. M
  239. A
  240. M
  241. J
  242. J
  243. A
  244. S
  245. O
  246. N
  247. D