Direitos Humanos e Futebol
As seleções nacionais, seja qual for a modalidade, são sempre o rosto de um país. Carregam as cores da bandeira do povo que representam e, não raras vezes, provocam um entusiasmo genuíno que unifica adeptos e gera emoções coletivas, recuperando o espírito patriota, às vezes adormecido. Essa emoção coletiva faz esquecer as mágoas pessoais e os problemas quotidianos, superadas pela esperança de vitória nos jogos. Pode-se simpatizar com outras seleções, mas dificilmente alguém veste a camisola e empunha a bandeira de um outro país, que não o seu, quando nem conhece a língua ou o território, como está a acontecer no Mundial de Futebol 2022, a decorrer no Qatar, onde tudo se compra, até adeptos figurantes.
O país conseguiu, ou comprou, a realização deste evento, apesar de a modalidade desportiva mais popular no Qatar ser o críquete. Aliás, ficou bem evidente no jogo inaugural onde, pela primeira vez num Mundial, a equipa anfitriã perdeu.
Mas o Qatar conseguiu, porque o dinheiro falou mais alto. Transformaram areias do deserto em oásis de luxo e construíram majestosos campos de futebol, que custaram a vida a milhares de trabalhadores migrantes.
Muitos se questionam como pôde a FIFA atribuir a organização do Mundial ao Qatar, onde não se respeitam os direitos humanos, se criminaliza a homossexualidade e desrespeita os direitos das mulheres. Um país onde a maioria de residentes são migrantes, indianos, nepaleses, das Filipinas e do Bangladesh, do Paquistão e do Siri Lanka, que trabalham na construção civil e no serviço doméstico. Apenas 11% da população do Qatar tem direito ao passaporte catarino e 30% da riqueza do país, está nas mãos de 1% da população.
Se há mérito nesta organização é o facto de trazer a público a realidade deste país, até agora mais conhecido pelo seu lado brilhante.
Poderia pensar-se que o fervor pelas seleções anestesiaria as consciências, como pareceu sugerir o presidente da República quando afirmou: esqueçamos os direitos humanos, apoiemos a seleção. Ou que a história de milhares de anos justificaria a injustiça no século XXI, como quis defender o presidente da FIFA alegando hipocrisia, do mundo ocidental. Foi para combater esses lapsos de memória, que há 74 anos foi escrita a Carta dos Direitos Humanos, a 10 de Dezembro de 1948. Para que nunca mais esqueçamos ou secundarizemos, os atentados contra a Dignidade. É disso que se trata, é o valor da Dignidade que está em causa, essência da própria condição humana. Um valor que não se vende, nem se compra, e tem custado a vida a muitos cidadãos no mundo, vítimas de ditadores e agressores, numa luta desigual onde há quem ainda esteja convencido que pode abafar a sua culpa com poder ou dinheiro.
O mundo não ficou igual depois da IIª Guerra Mundial. Ainda não conseguimos nos unir em defesa do bem comum, como ficou mais uma vez evidente na Conferência do Clima, mas estamos certamente mais conscientes do que não está correto e falta fazer, para que o mundo seja realmente mais justo e pacífico.
Não é utopia fazer a defesa dos direitos humanos, perante o Mundial de futebol, a invasão da Ucrânia ou a lutas das mulheres iranianas. A dignidade não permite parêntesis ou exceções.
Viver é um bem escasso, provisório e vulnerável, essencial e manipulável; um traço a carvão numa tela em branco, um desenho na areia que o mar desfaz na maré. Mas, se não lhe dermos corpo e sentido, perdemos o essencial da vida, a dignidade humana.
(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 22 novembro 22)