Natal dos Inocentes
Inocentes são as crianças, que desconhecem a ambição dos políticos e dos governos que gastam milhões em armas, destruindo vidas, em contextos de guerra. São inocentes, porque não foram ouvidas quanto ao futuro, que lhes está a ser roubado.
Segundo um recente relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (15.dez.22), para além de todas as mortes de soldados e civis nos bombardeamentos, 441 pessoas foram executadas sumariamente, entre as quais 28 crianças (20 rapazes e 8 raparigas). Deliberadamente, as execuções têm atingido mais homens do que mulheres e muitos são mortos nas suas casas e quintais.
Para além destas pessoas, que não estavam envolvidas diretamente na ação de guerra, muitas outras, quase 8 milhões, fugiram do país e 6,5 milhões estão deslocadas internamente. Segundo o Alto-Comissariado, 1,5 milhões de crianças está sob o risco de depressão, ansiedade e outras perturbações mentais, que irão marcar o seu futuro próximo. Quem protagoniza esta guerra quer destruir edifícios, centrais elétricas e fontes de sobrevivência e, ao mesmo tempo, pretende roubar o futuro das gerações mais jovens, destruindo escolas, creches e a vida comunitária do povo ucraniano.
No tempo de Jesus, Herodes, por temer ser destronado pelo “Rei dos judeus”, mandou matar todos os bebés nascidos, na esperança de assim acabar com o projeto de paz e Amor que Jesus veio trazer à humanidade. Maria e José também tiveram de fugir a esse massacre, para garantir que a mensagem de salvação se cumpria.
Segundo reza a História, Herodes, alienado no seu poder absoluto, acabou por morrer consumido por vermes, ao tentar usurpar o poder de Deus, como queria que o povo o chamasse. Esse é o destino de quem se alimenta de poder e julga dominar o mundo, sempre que levanta o dedo ou a voz.
As crianças ucranianas nunca irão perdoar o que fizeram ao futuro do seu país. São obrigadas a fugir, arrastadas pelos pais, para não morrerem, e vivem hoje na incerteza do que será o amanhã.
Por todo o mundo há crianças que fogem da guerra, da fome e agora também dos impactos das alterações climáticas, com secas e enxurradas que tudo destroem. Algumas dessas crianças, que foram separadas das suas famílias e encaminhadas para a Rússia, foram vítimas de adoções forçadas, como noticia a Amnistia Internacional.
Em tempo de Natal, quando festejamos o nascimento de Jesus e sentimos maior proximidade de quem nos rodeia, importa não viver este Natal numa bolha de bem-estar, ignorando todos aqueles que sofrem, são excluídos ou vivem mergulhados numa profunda tristeza, isolados e esquecidos.
Este é o tempo para abrirmos o coração e deixarmos entrar as emoções fortes, que marcam a humanidade, os irmãos que moram ao nosso lado e os que vivem longe. Ninguém “merece” sofrer, em particular as crianças, que não são ouvidas, nem têm voz, e quem se está a roubar o futuro.
Somos nós, os adultos, os seus “guardiões-protetores”, de quem elas esperam colo, segurança, um abraço forte e uma palavra de conforto: vai ficar tudo bem! Tantas vezes dissemos isso, no tempo do confinamento. Agora é hora de concretizar e fazer com que tudo fique bem.
“Ouvimos, lemos e vemos, não podemos ignorar” (Sofia de Mello Breyner) agressões e violência gratuita.
A paz no mundo também é responsabilidade nossa.
(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 20 dezembro 2022)