Fake news - inverdades
Entrou no vocabulário internacional a expressão “fake news”, uma designação anglo-saxónica para uma realidade que é conhecida de todos e em todas as línguas: a mentira, a inverdade ou falsidade. Conhecemos esta realidade nas palavras; nos objetos que parecem ser de, mas não são; nas imitações quase perfeitas, mas que são falsas!
Então porque motivo, só agora, descobrimos o peso das falsas notícias? Em grande parte porque as redes sociais são um adubo eficaz na sua propagação. Fazem mossa, muito antes de haver desmentidos, e intoxicam mentes, bloqueando o espírito crítico, a capacidade de distanciamento e a autoanálise.
É aflitivo ver como há mesmo pregadores que se encarregam de dar corpo às inverdades, e falam sobre tudo, desde as vacinas, que evitaram milhares de mortos, mas nas quais não acreditam, até à descrença nas instituições, renegando os direitos de cidadania, incluindo a própria democracia que lhes permite fazer esses discursos, sem serem condenados à cadeia, como acontece nas ditadura, quando alguém se atreve a por em causa o discurso oficial.
Estamos na primeira metade do século XXI e é inacreditável pensar que possamos dar espaço a ideias, das quais a Europa e o mundo se libertaram há um século, aquando da criação de organismos internacionais como a ONU ou documentos fundacionais, como a Carta Universal dos Direitos Humanos.
Urge distanciar-se e combater os discursos de xenofobia, negacionistas, contraditórios e, sobretudo, infundados. Discursos que distorcem a investigação científica e contestam a verdade dos factos e os direitos de todos.
Vivemos numa sociedade cada vez mais plural, com possibilidade de combater as desigualdades, conhecidas, estudadas e diagnosticadas, de todas as formas. Podemos fazer a diferença! Podemos ser mais justos e promover um mundo mais sustentável. Não é uma utopia. É a verdade.
Mas, para isso, temos de regressar aos valores em que acreditamos: a paz, a justiça, a liberdade, a solidariedade, que não são letra morta. São traves mestras dessa sociedade que queremos mais verdadeira.
Não é possível que ainda haja quem dê ouvidos e acredite em discursos que fazem a apologia da marginalização da diferença, ou não reconhecem o valor dos imigrantes que nos engrandecem, como agora se verificou nos Europeus de atletismo, onde Portugal consegue medalhas com pessoas que se naturalizaram portuguesas e vestem a camisola de um país que as acolheu, mas que nem sempre é suficientemente grato para reconhecer o seu contributo.
Precisamos todos de nos vacinar contra a inverdade.
A inverdade corrói a dignidade, mina o pensamento crítico e alucina as mentes.
Só a lucidez, o distanciamento perante o discurso fácil e populista, e a fé nos valores da liberdade e da democracia, podem combater eficazmente a intoxicação de quem apenas quer destruir, confundir, para depois vir reinar, qual salvador da pátria.
O país, a região, somos nós, cada um na sua circunstância e com as suas capacidades e defeitos! O país ou a nossa região não é uma entidade abstrata, que só alguns dizem defender, nem é um título de propriedade que entregamos a quem está nos órgãos de decisão política.
Lutemos contra o discurso populista com a verdade, dando espaço a todos e a cada um na construção da sociedade onde queremos viver, a começar pela nossa rua, freguesia e acabando na região ou no país.
(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 14 março 2023)