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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Ser mãe

No passado dia 7 de maio festejou-se o dia da mãe, celebrado antes a 8 de Dezembro, dia de Nossa Sra. Da Conceição, mas que, por razões várias, nomeadamente comerciais, festeja-se agora no primeiro domingo de maio.

Quem são as mães dos Açores de hoje?

Segundo as estatísticas do INE, publicadas no Pordata, são mulheres cada vez mais velhas, aquando do nascimento do primeiro filho, em média com 29,5 anos e são mães de menos filhos. O índice de fecundidade, que mede o número médio de filhos por mulher, diz-nos que, em 2021, esse valor não ultrapassava 1,32. São mulheres que, quando foram mães, na maioria dos casos (57,7% em 2022), não estavam casadas com os pais dos seus filhos. No entanto, 78% dessas crianças nasceram de casais que coabitavam.

Estamos perante uma alteração profunda do processo de construção familiar, que se inicia, mais frequentemente, por uma união de facto e não por um casamento formal. Se compararmos os números de 1981 com os de 2022, passamos de 2113 casamentos para 919 ou seja, menos 56,5%.  Ao invés, as dissoluções de casamento, que representavam, em 1984, 4,3/100 casamentos, em 2021 equivaleram a 72/100 casamentos.

A vida familiar mudou. As crianças nascem em contextos mais complexos, casais em união de facto; famílias recompostas, com filhos de anteriores relações; agregados mais pequenos e muitas vezes monoparentais. Em 2021 as famílias com apenas um adulto com filhos, representavam nos Açores 12%, quando em 1992 esse valor foi de 5,4%. Se atendermos a este último tipo de família, na grande maioria, são mães sozinhas, o que também contribui para o agravamento da pobreza familiar, em particular, a pobreza infantil.

As mães de hoje confrontam-se com duplos desafios. Por um lado, trabalham fora do lar e assumem uma vida profissional, que lhes proporciona, não apenas um rendimento, e que não é “suplementar”, mas a realização de uma atividade onde investem competências e profissionalismo. Por outro, continuam a ser extremamente avaliadas pela qualidade dos cuidados que prestam aos filhos, o tempo que despendem nas tarefas domésticas, a capacidade de educar, incluindo o julgamento que outros fazem da forma como esses filhos se comportam em público.

Os tempos mudaram e ser mãe, hoje, é fazer parte de uma equipa parental, onde as dificuldades e as tarefas têm de ser partilhadas, assim como as responsabilidades e os deveres. Mas, se isso é uma certeza, porque ambos trabalham e as crianças têm de aprender a fazer parte da comunidade, nem sempre é uma prática. E os olhares incidem nas mães, julgadas na praça pública como “boas” ou “más” em função de critérios do passado, quando se era mãe em exclusividade e, muitas vezes, os pais só cuidavam dos filhos quando estes já andavam por seu pé.

Os tempos são outros e hoje dizemos que os casais “engravidam” e as famílias querem-se comunidades de partilha. Só com esta perspetiva, podemos equacionar o aumento do número de nascimentos e garantir uma redução do envelhecimento populacional, que duplicou entre 2001 e 2021.

Ser mãe é uma experiência única, física, emocional, mas sobretudo afetiva. Uma ligação inigualável, que não dá posse sobre ninguém, mas confere o privilégio de cooperar no desenvolvimento de um ser, com identidade, um cidadão do mundo.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 9 maio 2023)

 "Onde é que você estava no 25 de Abril?"

 "Onde é que você estava no 25 de Abril?"

 

Esta célebre pergunta nasceu de um programa de entrevistas do escritor Baptista-Bastos, no final da década de noventa. Uma pergunta que toca, sobretudo, os que tiveram o privilégio de viver este dia histórico, que mudou a vida da sociedade portuguesa, não só pelo derrube do regime político, mas pela abertura ao mundo e a afirmação dos valores da democracia.

Onde estava eu no 25 de abril?

Era uma adolescente, que pouco ou nada sabia de política, mas que se questionava, por exemplo, porque motivo tinha de frequentar o Liceu Antero de Quental, rodeada apenas de raparigas, separadas dos rapazes por um corredor, controlado por uma funcionária? Porquê as raparigas da minha idade não ambicionavam o futuro passando pela universidade, mas viviam preocupadas com os namoros e o casamento?

As entradas e saídas do Liceu faziam-se por dois portões, um para cada grupo de género. Ao toque do fim das aulas, os rapazes lá estavam, plantados no passeio em frente ao portão das raparigas, para as verem sair.

Assim era o meu tempo de escola, quando a 25 de abril de 74, fomos avisados ao toque da sineta que habitualmente nos chamava para dentro das salas, para regressarmos a casa, porque tinha havido uma revolução em Lisboa.

Para os mais velhos, que frequentavam os últimos anos do liceu, alguns deles ativistas na clandestinidade, este acontecimento fazia sentido. Rapidamente se solidarizaram com os acontecimentos, que chegavam por rádio às ilhas, desfasados no tempo e distorcidos na objetividade dos factos.

Mesmo não tendo tido plena consciência do que representava, recordo a novidade das canções que passaram a tocar na rádio, onde se falava de liberdade e igualdade.

No liceu, eram frequentes as Reuniões Gerais de Alunos (RGA’s) que juntavam os estudantes no ginásio, para ouvirem falar de liberdade de expressão, revolução e afirmação dos direitos, contra as hierarquias autocráticas. Caía um véu de ignorância e subserviência, que acomodava os subalternos na condição de submissos e obedientes. Afinal, havia uma outra forma de estar, direito à palavra, inclusive, podíamos passar a conviver com os colegas rapazes. Deixava de fazer sentido, a separação entre géneros no Liceu e muitas outras limitações que eram impostos às raparigas, cujo futuro profissional e académico, era bem mais limitado.

O final da década de setenta trouxe uma aceleração na vida dos portugueses, confrontados com um mundo de novidades que, nos Açores, tiveram na chegada da televisão uma das principais formas de descoberta.  O mundo era muito maior, as possibilidades de ser, imensas; os direitos humanos, uma realidade desconhecida e a possibilidade de se fazer ouvir, uma oportunidade nunca antes vivida.

Onde é que você estava no 25 de Abril?

Se tivermos em conta os dados do último recenseamento (2021), 55,3% da população portuguesa tem hoje menos de 50 anos, logo, nasceu pouco antes ou mesmo depois 1974. E se considerarmos todos aqueles que eram crianças ou jovens adolescentes como eu, apenas 17% da população terá memórias vividas deste dia histórico.

Hoje, talvez não seja tão importante saber onde estávamos em abril de 74, mas o que fizemos do que nos trouxe o regime democrático?

Como ensinamos as gerações mais novas o sentido da liberdade? Que justiça social defendemos e que igualdade de oportunidades concretizamos?

texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 25 abril 2023

 

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