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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Eles

Eles, pronome pessoal, plural, que designa um coletivo. Até aqui, estamos todos de acordo. Mas, escutemos a nossa voz ou as vozes dos outros, quando se referem “a eles”? Não raras vezes, o recurso a este pronome significa que alguém fala de um coletivo anónimo, ao qual associa “culpas”, “responsabilidades”, porque a culpa é “d’eles”, “eles querem que nós...”. Se não fossem eles...!

Mas, quem são “eles”? Os outros? O Estado, o poder e o governo? Os donos da empresa? As instituições ou os políticos? Na realidade, são Todos, menos “eu”.

Não raras vezes o uso deste pronome é uma demonstração de auto-demissão de responsabilidades e uma vitimização consequente. “Eu” sou vítima deles que me obrigam ou pretendem fazer crer, que me impõem regras e regulamentos!

Este tipo de pensamento revela a incapacidade de reconhecer que a alteridade, a diferença, não está só nos outros (eles) mas em cada um de nós.

Paremos um pouco para pensar na nossa própria história pessoal, feita de experiências que marcaram e nos fizeram crescer ou parar no tempo. Olhando o fio do tempo, recordamos momentos e reconhecemos como mudamos, porque descobrimos novas formas de fazer, aprendemos com os erros cometidos, encontramos pessoas que nos ensinaram a ser diferentes. O que é isso se não dar a si mesmo a oportunidade de ser diferente?

Enquanto usamos o pronome “eles” e não fazemos qualquer esforço para os conhecer, ouvir as suas histórias, nunca conseguimos dar um nome a essas pessoas anónimas, nem conseguimos contestar, com argumentos válidos, decisões de um governo, de uma escola ou de alguém.

Se queremos entender o porquê do que “eles” optam por fazer ou decidem, então é importante ouvir, mas também dizer o que pensamos, seja na reunião de pais da escola dos filhos, votando nas eleições, assinando petições que defendem direitos de cidadania, pedindo esclarecimentos e reivindicando mais informação, para decidir com consciência.

“Eles” fazem parte, como “nós”, da mesma sociedade. E eles, quem são? São todos os outros, incluindo os mais pobres, os que estão dependentes de drogas, vivem na rua, são portadores de deficiências, têm diferentes formas de viver o género feminino ou masculino, são meus vizinhos de rua, colegas de escola ou de trabalho, familiares distantes. Eles não são o lado sombra da sociedade.

Quando ouvimos o uso do pronome “eles” em discursos políticos, é evidente a desinformação com que esses oradores querem doutrinar as massas, fazendo acreditar que são os únicos portadores da verdade, perante uns quaisquer “eles” que só querem destruir, manipular ou enganar. Sempre que recorrem a “eles”, defendem um mundo fechado onde só cabem alguns, os escolhidos, privilegiados na condição económica ou cultural e que, por isso, “merecem” mais oportunidades. Eles, os outros, terão de se converter, se quiserem fazer parte desse mundo.

É urgente sairmos dessa visão extremista, que impede o diálogo, o respeito pela diferença, a democracia e a convivência construtiva, na diversidade de pensamentos, idades, géneros, credos ou orientações ideológicas.

É urgente treinar a descoberta do outro que, afinal, existe em mim. “Eu” sou para alguém um “ele” até ao momento em que nos encontramos e passamos a ter um nome, uma história e reconhecermos que, somos um “nós”, porque fazemos parte da mesma humanidade.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 20 junho 23)

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