A juventude do Papa
A Jornada Mundial da Juventude (JMJ) foi um momento excecional, de grandes emoções e encontros. Apesar de todos sabermos que as multidões têm esse poder de contágio, potenciam emoções e levam alguns a sentirem-se diferentes, tocados por um sentimento comum, o certo é que ficaram marcas destes dias em que o Papa Francisco visitou Portugal. Ficaram marcas, não apenas nos jovens, mas em todos que o ouviram dizer para não termos medo ou quando lembrou que a nossa história é feita de muitas pessoas, porque ninguém é como uma erva, tem raízes que a identificam. São essas raízes que nos suportam, ajudam a crescer e a ser para os outros, devolvendo o apoio que recebemos.
Este é um Papa com juventude, capaz de perceber que são precisas poucas palavras para tocar o coração. Como dizia Francisco, ao fim de oito minutos um jovem desliga a atenção, como aliás faz nas redes sociais.
Ficaram frases, slogans, mensagens e alertas. Ficou o sentimento de que é possível um mundo melhor! Com os jovens de corpo ou de espírito, é possível. Não é uma missão da igreja católica, nem dos seus praticantes, mas um desafio para quem não é passivo perante conflitos, domésticos ou políticos, para quem deseja uma paz ativa e não desiste de participar na construção desse mundo. Esta não é uma mensagem nova, o Papa reflete as palavras do Evangelho, uma mensagem sempre nova, que toca o essencial, o mais íntimo de qualquer ser humano: não tenhais medo e acreditai na força da Paz e no poder do Amor.
Somos todos vulneráveis, temos medos e falhamos em muitas ocasiões na vida, porque não sabemos como lidar com o insucesso, a incompreensão, as agressões e, sobretudo, as injustiças. Mas esses são apenas alguns dos obstáculos, incapacidades transitórias que fazem parte do processo de construção. E um a um, podemos vencer essas dificuldades ou com elas conviver se, em vez de ficarmos de braços cruzados, parados, de olhar indiferente, ativarmos a força que vem do coração, do perdão e da solidariedade.
Terminada a JMJ talvez seja mais evidente o lema, proposto pelo Papa, que diz: apressa-te a levantar e vai ter com quem precisa de ti. Apressa-te, porque não tens todo o tempo do mundo, mesmo quando se é jovem. Se tens hoje uma oportunidade de ser melhor pessoa, de fazer a diferença, não a percas. É a ocasião para telefonar a alguém? pedir desculpa ou perdão? Tomar uma decisão difícil? Então não hesites, vai, faz, age.
O Papa usou mesmo a imagem das ondas e do surf, onde é preciso saber tocar a onda quando ela quebra e o mar parece se desfazer em espuma.
O Papa Francisco relembrou ainda que somos todos importantes! Todos contamos para fazer o mundo diferente. Não somos um número, cada um tem um nome. E é por esse nome que devemos ser tratados, seja na escola ou nos serviços de saúde, na família ou na comunidade. Em comunidade, ninguém consegue sobreviver sozinho. Não há felicidade na autossuficiência. Todos precisamos de todos, sobretudo nos momentos de maior fragilidade.
E de novo uma frase ficou, “Só quando é para ajudar o outro em dificuldade, temos o direito de o olhar de cima para baixo”. E, queiramos ou não, todos já estivemos nessa condição, em baixo, a precisar de ajuda. E todos sabemos que é preciso humildade para estender a mão, seja para ajudar ou ser ajudado.
(Artigo publicado no jornal Açoriano Oriental de 7 Agosto 2023)