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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

O Natal vai passar por aí

Por entre os vidros das janelas veem-se luzinhas que brilham numa árvore colocada ali, de propósito, para que se veja da rua. Mais à frente, um pai natal surge pendurado, do lado de fora de uma casa, espreitando para dentro, trazendo nas costas a saca dos desejos, de crianças e adultos. Todos esperam receber um bem, uma notícia ou algo de bom, venha de onde vier, do Pai Natal ou do Menino Jesus. 

No Natal as casas abrem-se ao mundo, renovadas e brilhantes.

Fizeram-se as limpezas da festa; cheira a óleo de cedro e a cera; as cortinas foram mudadas e as paredes lavadas. Está tudo pronto, mesmo quando não se espera que alguém apareça.  

Na mesa, há figos ou chocolates e um licor caseiro. A tradição dita que, nestes dias, o “Menino mija” em cálices de vidro que transbordam de licor de tangerina ou de vinho abafado.

No Natal as casas cheiram a cedro e a velas acesas; sente-se o calor da lareira ou das mantas que cobrem as pernas, mesmo que não faça frio. Apetece uma caneca de chá com biscoitos ou uma fatia de bolo rei e, sabe tão bem ficar a ver um desses filmes românticos, que passa na televisão, onde se descobre o “happy end”, antes mesmo de acontecer.

No Natal, ficamos todos mais sensíveis. Fazem falta os abraços e os risos das crianças e é difícil não ficar emocionado, quando se levantam os copos, para recordar quem partiu ou não pôde vir à festa e, por isso, sobram lugares na mesa.

O aconchego é bom! Mas! este é um tempo de passagem!

Um tempo para deixarmos que o amor passe por nós e nos toque com a força da solidariedade e olhemos à volta, para quem vive com muito mais dificuldades.

É certo que devíamos concretizar essa frase tão batida, de que o Natal é quando um homem quiser, mas, infelizmente, essa vontade de ajudar só nos “bate” em Dezembro. Não faz mal. O importante é mesmo abrir o coração e sentir o efeito benéfico da brisa que entra e nos obriga a olhar para fora de nós. E, ao contrário dos convites ao consumo desenfreado, que nos alienam, as dificuldades dos outros fazem-nos sentir frágeis, vulneráveis e mais sensíveis.

Podemos criticar as iniciativas, privadas e públicas, que oferecem cabazes de bens essenciais, porque são gotas num oceano de dificuldades. Mas, talvez possamos pensar no bem que isso pode representar para algumas famílias, para quem essa dádiva abre um parêntesis de conforto, numa narrativa dramática que, infelizmente, irá regressar depois das festas, se mais nada acontecer e outras respostas não forem dadas.

Natal é tempo de “portas abertas”, de sorrisos e votos de “Boas festas”.

Deixar que passe por cada um essa “boa onda” que aproxima, esse sentimento de comunidade que reúne e transforma os conflitos em paz, os egoísmos em solidariedade.

Natal é tempo de convites: passa lá por casa! Vem ver o meu Menino Jesus! A porta está sempre aberta!

O mundo seria bem diferente, se pudéssemos e quiséssemos manter as portas abertas. Ao invés, desconfiamos, temos medo, pomos ferrolhos e alarmes, grades nas janelas e trancas nas portas, das casas e dos corações.

A Paz só acontece quando abrimos a porta do coração para escutar os outros. E como faz falta a Paz neste tempo de guerras, onde morrem tantas crianças.

A Paz não é silêncio, nem mesmo “pausa humanitária”, mas entendimento e diálogo.

A Paz só acontece no Natal, quando as casas e os corações, tal como no estábulo de Belém, são lugares de passagem que acolhem o milagre do Amor.

 (texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 19 dezembro 2023)

Os duros números da pobreza

“Torturem os números que eles confessam” (2014) é o título da obra do economista Pedro Ramos. Para falarmos da pobreza nos Açores, não é preciso torturar os números, porque eles estalam no meio do “verniz político”.

Reduzir a pobreza é um desafio estrutural, que se agrava com as crises, mas também com as políticas de “maquilhagem”, que não trabalham causas, mas alimentam aparências. 

Os números não mentem, sobretudo, quando olhamos às tendências dos últimos anos. Na Região Autónoma dos Açores, em 2018, a taxa de risco de pobreza, após as transferências sociais, era de 31,6% e desceu para 21,8% em 2021, um valor surpreendente, quando em todas as outras regiões a pobreza aumentou com a pandemia. Teria sido um bom indicador, não fora o retrocesso verificado em 2022 (25,1%), agravado em 2023 e que coloca a região na taxa de risco de pobreza mais elevada do país (26,1%).

Em matéria de combate à pobreza, estamos a perder terreno.

Os Açores são a região, do país, mais desigual em matéria de distribuição dos rendimentos.

Podemos tentar torcer estes números, mas a realidade não os desmente, antes nos faz questionar.  Como pode o número de beneficiários do RSI ter diminuído 42,8% em três anos (menos 6200), entre out. 2020 (14494) e out. 2023 (8294) e, ao mesmo tempo, existirem mais 13 mil pessoas, a viver com rendimentos abaixo do limiar da pobreza?

Se as famílias conseguiram obter rendimento do trabalho, como alegam os governantes, “torcendo” os números do emprego para explicar a baixa dos beneficiários do RSI, porque motivo há mais 800 famílias a serem apoiadas pelo Banco Alimentar (+33%) e mais 758 beneficiários do Fundo Europeu de Auxílio Alimentar (FEAC)?

A pobreza não significa apenas baixos rendimentos monetários, envolve outras desigualdades, nomeadamente, no acesso à habitação, na saúde e, sobretudo, no grau de escolaridade atingido.

Quanto à habitação, as respostas não passam, forçosamente, pela construção, mas deveriam apostar na reabilitação do edificado e no apoio às rendas. Não podemos esquecer que os Açores têm menos 10 mil habitantes (Censos 2011 e 2021) e há freguesias a perder população residente.

Em termos educacionais, regista-se um agravamento dos números nos Açores, nomeadamente, baixou a taxa de escolarização em alguns grupos etários e aumentou a taxa de abandono escolar precoce, que avalia o número de jovens entre os 18 e os 24 anos que não completou a escolaridade obrigatória (de 23,2% em 2021 para 26,5% em 2022). Ao invés do país (6%) que ultrapassou a média europeia (9,4%), os Açores têm o número mais elevado de jovens não qualificados, o que agrava a procura de emprego e as desigualdades em geral, particularmente ao nível da saúde.

Não vale a pena envernizar os números, para aparentar melhorias.

O combate à pobreza implica um desenvolvimento sustentado e sustentável, que não se compadece de acordos políticos, onde se promete baixar o número de beneficiários do RSI, retirando os pobres da estatística, mesmo que aumentem a miséria, a fome, o analfabetismo ou o insucesso escolar.

Que Região queremos ser? O que fizemos das relações de “fraternidade” do Espírito Santo ou das romarias? Contra a dureza dos números só a humanização da política e um verdadeiro Estado Social podem enfrentar o desafio da pobreza.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 5 dezembro 2023)

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