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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Nos 50 anos da democracia

O país votou e de forma mais expressiva, um sinal positivo da democracia, valor inestimável, que Portugal conhece há cinquenta anos.

E, é porque vivemos em democracia que foi possível ouvir, nesta última campanha eleitoral, discursos radicais de direita, inspirados em velhas e bolorentas páginas da história. Houve quem propusesse retrocessos no texto da Constituição, o encerramento de fronteiras, a escolha dos imigrantes, a penalização moral e social da livre expressão da orientação de género, a recuperação de um quadro tradicional da família, preferencialmente, numerosa, onde a mãe seja doméstica e o pai provedor; uma família perfeita, onde não se fale dos conflitos individuais.  Um país “orgulhosamente só” que exalte a pátria, como valor absoluto de autossuficiência e onde os pobres sejam controlados, fiscalizados pelo poder público, por técnicos que, atrás de uma secretária, atribuem apoios, a quem merecer receber.

Esta é, por ventura uma caricatura, mas quem leia os programas eleitorais dos partidos que se posicionam mais à direita no quadro político atual, irá encontrar medidas que visam o que uns chamaram de “limpeza”, imbuídos de uma roupagem moral de “intocáveis”, face a todos esses que, na ótica desses partidos, “poluem” o país:  os pobres, as prostitutas, os imigrantes e a comunidade cigana, todos aqueles “outros” que “incomodam” e que terão, se quiserem viver neste país, de sujeitar-se a ser “como eles”, filhos da terra, herdeiros de uma nacionalidade.

Quando estamos a completar 50 anos de libertação de um regime autoritário e ditatorial, quando mais de três gerações puderam nascer sem medo, com acesso à escola e a um sistema de saúde público; quando ser mulher deixou de ser uma menoridade, mas condição de partilha de oportunidades e direitos, o país é confrontado com discursos que põem em causa a construção de uma sociedade paritária, solidária e aberta à diversidade cultural. 

O poder que humaniza é compreensivo, empático, procura identificar causas e encontrar soluções a partir dos contextos. Estes “novos” discursos, advogam o regresso à justiça individual, a redução do dever de solidariedade, o afastamento estrutural entre os que mais têm e os que menos possuem e promovem o agravamento do fosso social e económico, que fará regressar mendicidade, ignorância e falta de oportunidades!

O país acordou, no dia 11 de março, diante de um futuro incerto.

A história, que vier a ser escrita, irá contar este tempo e, talvez nessa altura, se possa entender o que aconteceu às gerações que, nascendo em democracia, se cansaram do que esta representa. Porque em democracia, todos os dias, temos de lutar, afirmar direitos, estar atentos a abusos de poder, vigilantes no cumprimento dos princípios da liberdade e da responsabilidade social. Será que as gerações de abril esqueceram de dizer aos filhos, o que representou a transição para a democracia? Será que alguns educaram as novas gerações, mais qualificadas do que eles, fazendo crer que a construção do país e o poder deveriam estar nas mãos, apenas, de alguns? Será que lhes prometeram o paraíso, sem lhes fazer crer que as ilusões devem dar lugar à realidade e a compreensão dos problemas deve partir da realidade vivida pelas pessoas?

O país votou e, agora, depois de arrefecer a pancada, Portugal terá de saber mostrar a si mesmo e ao mundo, o que realmente importa, quando se festeja 50 anos de democracia e liberdade.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 12 março 2024) 

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