Anticiganismo
São muitos os dias internacionais, outros tantos alertas, para dimensões da vida humana ou da natureza. A 8 de abril, o mundo foi convidado a refletir sobre a integração da comunidade cigana, a maior minoria étnica que vive na Europa, com cerca de 10 milhões de pessoas. Criado em 1971, o dia internacional do cigano visa derrubar barreiras que se erguem nas comunidades, quando se trata da relação com pessoas desta etnia.
A pior de todas essas barreiras é o preconceito, que gera discriminação e empurra a comunidade cigana para periferias territoriais, dificulta o acesso e a integração na comunidade escolar, gera mal-estar no contexto do sistema de saúde e é indesejada no domínio das atividades económicas, devido à relevância do comércio ambulante.
Sempre que nos confrontamos com comunidades, culturalmente diferentes, a tendência é definirmos regras estritas, uma “cerca de condicionalismos” que, obrigatoriamente, todos têm de passar se quiserem “ser como nós”.
O alerta europeu no dia 8 de abril, recorda que a inclusão da comunidade cigana significa diálogo, acolhimento e compreensão, ou seja, implica conhecer a cultura e a história que forjam uma forma de ser e estar próprias.
Infelizmente, esta grande comunidade tem sido alvo de discriminação, exclusão e, sobretudo, preconceito, barreiras que isolam, dificultam o acesso aos recursos e acabam por empurrar as comunidades ciganas para habitações degradadas e sem condições, nas margens dos territórios, como é evidente no caso da cidade de Ponta Delgada.
Não faltam exemplos, em municípios do continente, que apostaram em contrariar esta atitude, acolhendo projetos e iniciativas de inclusão, inseridas no quadro da Estratégia Nacional para a integração das pessoas ciganas, nomeadamente ao nível da integração e permanência das crianças nas escolas, do acesso ao sistema de saúde e melhoria nas condições habitacionais. Sem estes meios de autonomia (habitação, educação e saúde) dificilmente se consegue evitar a queda em situações de pobreza extrema.
Como dizia o responsável pela Pastoral dos Ciganos, falamos baixo, quando dizemos que conhecemos alguém de uma minoria, cigana ou outra, mas falamos alto, quando se trata de apontar o dedo para menorizar essa condição. Julgamos os outros, do cimo do nosso conforto e superioridade moral.
A inclusão é um direito que decorre da Constituição Portuguesa e como referiu Maria Manuela Mendes, investigadora responsável por um novo estudo sobre a comunidade cigana que irá decorrer entre 2024 e 2026, tem aumentado o “anticiganismo”, uma forma de racismo que reflete um claro retrocesso na sociedade de direito que temos vindo a construir em Portugal, em 50 anos de democracia.
Como em qualquer outra forma de racismo, alimentam-se ódios, desconfianças em relação a um “eles” que não tem rosto nem história.
A descriminação é uma forma de desumanização, onde não há empatia ou compaixão, apenas desprezo, abandono e indiferença. O outro não existe ou como referia Goffman, ao falar de estigma, é reduzido a um atributo: ser mulher, deficiente, cigano, negro, alcoólico ou outro.
A pessoa desaparece, o cidadão deixa de ter direitos, fica apenas um rótulo, uma etiqueta, que o coloca no saco dos “indesejáveis”.
O dia internacional da comunidade cigana é mais um momento para refletirmos sobre o estado da democracia, que se vive em Portugal há 50 anos.
(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 9 de abril 2024)