A mentira tem perna curta
Sempre ouvi dizer que a “mentira tem perna curta” e tarde ou cedo é descoberta.
Mas, infelizmente, com as tecnologias atuais e a velocidade com que as informações entram e saem das redes sociais, a mentira faz o seu caminho de forma demasiado rápida e, quando vamos atrás dela para a desmascarar, o estrago está feito. Já milhares de pessoas a reproduziram, convictas de que dizem a verdade, porque ouviram na televisão ou viram um vídeo na net.
Fui educada a não mentir, uma forma de estar que a vida ensina a mitigar, porque há ocasiões em que é mais avisado e inteligente ocultar informação, ou não a revelar na íntegra. Mas entre essa gestão da verdade e mentir descaradamente vai uma enorme distância.
Hoje, mais do que nunca, temos de estar atentos à informação que é veiculada e nos entra em casa. Prova disso, é ver canais de televisão e jornais a filtrarem as declarações dos intervenientes nos debates eleitorais, após a sua realização (“fact check”/prova dos factos). Desde a eleição de Trump, em 2016, que o jornalismo sentiu necessidade de desmontar as “fake news”/notícias falsas, e começaram a surgir programas baseados na ideia do polígrafo, onde se testa a veracidade das afirmações e dos factos. Infelizmente, há políticos que mentem sem rodeios, sem que os telespectadores ou leitores tenham tempo ou estejam alerta, para a necessidade de validar a informação veiculada. E, esse exercício é cada vez mais fundamental; revela consciência crítica, capacidade reflexiva, discernimento e bom senso. Temos de nos distanciar do que é dito, mesmo quando a pessoa, que o diz, parece credível e convencida da sua verdade, foi embaixador ou empresário. Entre dizer e verificar, a mentira provoca estragos, desinformação e gera incerteza, um terreno fácil para os “pregadores da desgraça”, que sempre gostaram de promover a ignorância e a revolta, para depois surgirem com discursos salvadores: “vamos por tudo em ordem”.
Alerta, é o mínimo que podemos dizer. Não nos deixemos enganar por discursos fáceis, que arrasam a realidade, sem nunca identificarem as mudanças estruturais que, entretanto, ocorreram e, que no caso português, são hoje os pilares da democracia que acabou de completar cinquenta anos. Basta ouvir o candidato, às eleições europeias, António Tânger Correia, ex-embaixador de Portugal no Qatar e Israel, para encontrar exemplos como enganar um telespectador menos informado. Disse o candidato que há 40% de pobres em Portugal, sem nunca referir a importância das transferências sociais, que colocam a taxa de pobreza em 17% (2023), nomeadamente, as pensões de velhice, o Complemento Solidário para Idosos, que o seu partido até quer equiparar ao salário mínimo, para não falar do abono de família, do subsídio de desemprego ou de reinserção social.
Quando não mente nos números, o candidato Tânger Correia mente nos factos, nomeadamente associando um aumento da criminalidade à presença de imigrantes, “os maus”, porque os bons, esses, na sua opinião, até podem ficar, já que faltam trabalhadores portugueses que aceitem ganhar pouco e viver em condições infra-humanas. Deliberadamente, este senhor ex-embaixador, esquece que fomos e somos um país de emigração, e que os portugueses são imigrantes em França, Alemanha, Luxemburgo ou mesmo Estados Unidos e Canadá. Será que também eles agravam a segurança desses países?
A mentira até pode ter perna curta, mas tem língua longa.
(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 21 de maio 2024)