Contra o discurso de ódio
18 de junho foi o dia escolhido pelas Nações Unidas para assinalar o “combate ao discurso de ódio”, que viola os direitos humanos e impede a paz. De acordo com a ONU, o discurso de ódio é “qualquer tipo de comunicação, verbal, escrita ou comportamental, que ataque ou utilize linguagem pejorativa ou discriminatória, com referência a uma pessoa ou grupo, com base no que eles são”. (www.un.org)
Quando dizemos que “uma palavra pode magoar mais do que uma pancada!” temos bem consciência do impacto que pode ter a nossa comunicação.
As palavras podem matar a dignidade e os direitos das pessoas. As palavras, sobretudo quando são pronunciadas por quem tem o dever de proteger, podem destruir a autoestima e o bom nome de alguém.
E, as palavras que magoam, apesar de dizermos que “leva-as o vento”, na realidade, deixam marcas profundas em quem as ouve. E não há volta a dar, uma vez ditas, não podem ser apagadas, retiradas, mesmo que a seguir, nos apressemos a pedir desculpa: “não era bem isso o que eu queria dizer”.
O discurso de ódio desumaniza, atenta contra os direitos humanos, retira o amor-próprio de alguém, inferioriza, menoriza e torna essa pessoa incapaz de lutar contra o impacto da humilhação, vinda de quem revela ser incapaz de o reconhecer como igual.
Mas como identificar o discurso de ódio?
Quando a palavra é utilizada não para elevar, ajudar e proteger, mas para espezinhar, humilhar, controlar e oprimir alguém.
O discurso de ódio incita à violência, cria um terreno favorável à discriminação, representa um olhar negativo sobre um grupo ou uma pessoa. Por isso, é a face negra de uma sociedade que não promove o respeito mútuo, a compreensão, a partilha de ideias, mesmo que antagónicas. Não temos todos de pensar o mesmo ou de ver a vida da mesma forma, mas a convivência entre contrários só é possível através do diálogo e do respeito pela diversidade de perspetivas.
Como cresce esse discurso, o que o alimenta?
Há crianças que recorrem a palavras ofensivas, sem serem repreendidas. Usam-nas para magoar colegas na escola, esse fenómeno que designamos “bullying”, para não dizer violência. Este tipo de discurso também é frequente nas redes sociais, onde parece não haver regras, sobretudo quando os autores dos comentários se escondem por detrás de identidades falsas.
O discurso de ódio alimenta ideias falsas e erróneas sobre quem não conhecemos, mas que, rapidamente, rotulamos negativamente, seja por causa das suas crenças, idade, género ou etnia.
A História está recheada de episódios onde o ódio matou antes das armas.
Bastaria recuar alguns séculos e olhar as práticas de perseguição e destruição de povos indígenas, após a invasão dos ocidentais por terras de África e da América, ou recordar os horrores do holocausto. Infelizmente, o ódio continua a motivar decisores políticos, alimentando guerras onde, para atingir um alvo, supostamente militar, se retira a vida a crianças, realimentando o ódio que isso gera em outros. Porque o ódio gera ódio, tal como o Amor gera Amor.
Se queremos acabar com o discurso de ódio, temos de mudar a forma como pensamos sobre os outros, como respeitamos e convivemos com as suas diferenças. E, quando assim fizermos, a nossa língua não irá trair o nosso pensamento, os gestos de paz serão reais. Porque a paz não é filha do ódio. A paz só nasce do Amor.
Alimentar o ódio é agravar o desespero e o conflito.
Só o Amor pode gerar Esperança e Paz.
(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 18 de junho 2024)