Acesso às Creches nos Açores
A fronteira entre uma direita democrática e uma direita radical ou extremista está traçada nas políticas sociais. De um lado, a social democracia, apesar de evitar o conceito de Estado Social, defende o combate às desigualdades sociais e a promoção das respostas às populações mais vulneráveis. Do outro, os radicais de direita, olham para os apoios sociais, como esmolas, sempre discricionárias; julgam o mérito de quem as recebe, avaliando subjetivamente o percurso e a condição de vulnerabilidade. No quadro deste pensamento radical, gritam a destruição de medidas de apoio social, alegando a defesa de uma “certa justiça”, incapazes de entender a dimensão sistémica da pobreza.
Infelizmente, foi esta linha de pensamento que contagiou o atual governo regional, quando aceitou alterar os critérios de acesso às creches nos Açores, que pune aqueles e aquelas que se encontram desempregados, à procura de emprego, são domésticas, e eventualmente são pais portadores de deficiência. São preteridos, no acesso a uma vaga de creche, privilegiando-se os outros designados por “trabalhadores”, incluindo aqueles que possuem uma condição económica suficiente, para assegurar o pagamento das mensalidades, numa qualquer creche privada.
Ninguém nega o valor da gratuitidade da creche, mas essa medida só faz sentido, quando há vagas em número suficiente. Não havendo, o sentido da justiça social deveria passar pelo equilíbrio entre quem pode contribuir e quem não está em condição de o fazer. E, retirar dessa equação, os pais e mães que, por exemplo querem entrar no mercado de trabalho, a exemplo das famílias monoparentais, é não entender a importância que a colocação das crianças menores, em creche, pode ter na mudança de rendimentos de um agregado familiar, onde os adultos não conseguem responder às necessidades das crianças.
Estar desempregado(a) e/ou ser doméstica, com filhos a cargo, são duas condições que fazem aumentar o risco de pobreza. Está quantificado e publicado.
Pergunta-se então, como pretende o governo regional combater a pobreza nos Açores, com a discriminação dos pais “não trabalhadores” no acesso às creches?
Qual foi a voz de bom senso que ouviram os governantes? Ou será que se deixaram levar pelas vozes, desinformadas, que defendem que o desempregado “tem culpa” pela condição em que se encontra? E, que, a mulher/mãe doméstica, que cuida sozinha de três ou quatro filhos menores, só não trabalha fora de casa, porque não quer?
A decisão tomada é incoerente e atenta contra a justiça social, recorrendo a medidas de (des)igualdade (creches gratuitas para todos os que trabalham), que não promovem a necessária equidade (creches gratuitas, prioritariamente, para quem menos pode pagar e mais necessita de entrar no mercado de trabalho).
O acesso à creche é, sem sombra de dúvida, uma medida de combate à pobreza das famílias, o mesmo é dizer, de redução da pobreza infantil, com um forte impacto na prevenção do insucesso escolar. Face ao aumento que estes indicadores têm registado nos Açores, pura e simplesmente, não se percebe a decisão tomada pelo atual governo regional, ao alinhar numa proposta parlamentar, tão incoerente e irresponsável.
Os Açores merecem uma governação consistente, que promova a coesão social, com medidas de verdadeira justiça social, sob pena de se agravar o fosso, entre os que mais têm e os que menos têm, um indicador de subdesenvolvimento, agravado nos Açores, que deve combatido e corrigido.