Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Sem abrigo

“O que vai ser da minha vida agora? O que vou fazer? Onde vou dormir?” “Sempre fui um homem de coragem, com pensamentos positivos, mas agora estava com medo”. Assim começa a primeira crónica de Jorge Costa, que viveu na rua como sem-abrigo, durante oito meses. As suas crónicas, publicadas no jornal “Mensagem de Lisboa”, retratam como dormiu no meio do lixo, foi assaltado, mergulhou a cabeça nos contentores quando tinha fome, comeu as refeições que lhe davam nas carrinhas de apoio e fez a sua higiene em casas de banho públicas ou nos balneários dos bombeiros. Ao fim de vários meses, encontrou ajuda, na autarquia de Lisboa, em plena pandemia (2020) e acabou beneficiando do programa “housing first”, uma solução que está a ser ensaiada em Ponta Delgada.

Esse dia de maio 2020, quando pôs a chave à porta da sua casa, foi para Jorge “o primeiro dia do resto da sua vida”. Faleceu, em 2022, com 55 anos. As suas crónicas, editadas em livro (Diário de um sem-abrigo, Ed. Oficina do Livro, 2022) fazem-nos “mergulhar” numa realidade sombria, que incomoda, onde se ouvem vozes de vidas sem rumo, muitas delas, destruídas por dependências, que consomem a alma e a dignidade.

Também na cidade de Ponta Delgada, há dezenas de vidas paradas, bloqueadas, sentadas no chão dos passeios. Segundo o estudo “à Margem” (2020) 300 das 344 pessoas identificadas, viviam na dependência do álcool ou de substâncias psicoativas e 278 não tinham suporte familiar. Tal como Jorge Costa, o despejo forçado de uma habitação, a rutura com a família, a perda de recursos, empurraram essas pessoas para a rua, na busca de tempo até encontrarem uma solução, uma saída.

Este é um problema nacional e europeu. De acordo com dados de 2023, Portugal teria mais de 10000 pessoas na condição de sem-abrigo e, na União Europeia seriam 900 mil a dormir na rua.

Designamos estas pessoas de “sem-abrigo”, mas hoje é consensual existirem, pelo menos, duas condições diferentes, os que não têm um teto, e por isso vivem na rua, e os que não têm casa, mas dormem em abrigos ou alojamentos temporários.

O abrigo, a habitação, a casa, representa mais do que um teto que protege das intempéries. A casa é um lugar de referência, um endereço que se pode apresentar numa entrevista de emprego, permite receber apoios sociais ou registar as contas da água e da luz.  A casa não é apenas um alojamento, é um lugar de refúgio e privacidade, um espaço de intimidade, onde se constroem memórias e se abrem portas ao mundo.

Jorge sentiu na pele o desprezo, por cheirar mal, mas como ele próprio refere, não é fácil cheirar bem quando não se tem acesso a um chuveiro. Ele tinha memória do que era viver com conforto, poder escolher o perfume e a roupa, comer em restaurantes e regressar a casa. Mas, não seria esse passado, que o faria sair da rua. Precisava de uma nova oportunidade, diferente, que o ajudasse na “reconstrução” da sua vida. Ter sido cronista na “Mensagem de Lisboa” foi, sem dúvida, uma âncora, mas a dignidade, não se compra com um salário. Foi preciso voltar a confiar em si e nos outros e poder concretizar o sonho que o atormentava, quando dormia enrolado num cobertor, debaixo da ponte: “voltar a ser um ser humano e ser tratado como tal”. No dia em que Jorge pode dormir na sua casa, ao abrigo do programa “housing first”, o sonho tornou-se realidade.

 (Texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 11 de outubro 24)

 

Mais sobre mim

imagem de perfil

Visitantes

Arquivo

  1. 2025
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2024
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2023
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2022
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2021
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2020
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2019
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2018
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2017
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2016
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2015
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2014
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2013
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2012
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2011
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2010
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2009
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2008
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D
  235. 2007
  236. J
  237. F
  238. M
  239. A
  240. M
  241. J
  242. J
  243. A
  244. S
  245. O
  246. N
  247. D