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09
Abr10

Desculpar ou perdoar

sentirailha

Aparentemente são dois verbos de significado idêntico ou pelo menos utilizados com o mesmo propósito. Mas, na realidade, representam atitudes diferentes e reflectem o sentido profundo das relações humanas.

Desculpas são também justificações, para não fazer ou faltar a um compromisso. O povo costuma dizer que há desculpas esfarrapadas, pouco consistentes, que escondem as verdadeiras razões.

Desculpa, como a própria etimologia revela, é um pedido de reparação, uma “borracha” que se procura passar por cima de uma qualquer situação e, assim, ilibar alguém da “culpa” ou do “erro” cometido. Mas, quem passa a vida a pedir desculpa dificilmente muda de comportamento, apenas vai usando o corrector numa vida repleta de erros.

O perdão é bem diferente, porque não repara, renova. Não elimina as aparências, mas restabelece a ligação entre as pessoas. Perdoar significa “para dar”, ou melhor, devolver o amor entretanto perdido e recuperar uma ligação afectiva que se rompeu devido a uma ofensa, uma traição ou até um mal-entendido.

O perdão é mais do que uma desculpa, é um acto de amor e de reencontro. Um abraço que reconforta e aconchega quem antes estava distante.

Perdoar não é esquecer, mas renovar o amor, assumindo as marcas que o sofrimento deixou. Perdoar não é fazer de conta que nada aconteceu, mas aceitar o outro com as suas fraquezas e, também, reconhecer a sua capacidade de amar.

Nem sempre isso acontece quando apenas se desculpa. Aparentemente, ficou tudo esquecido mas, na realidade, vão-se guardando em memória, num arquivo de ódios contidos, as mágoas entretanto vividas.

Afinal, desculpas ou não? Desculpar é muito mais um parêntesis do que uma renovação. Por debaixo do corretor, continua a marca do erro.

Perdoar é intenso e profundo. É íntimo e espiritual. O perdão não desculpa, nem esquece, mas também não recupera os erros do passado, para os devolver. Quem perdoa liberta o outro e liberta dentro de si o amor, entretanto contido, escondido e quantas vezes magoado. Um peso que alguns carregam durante anos, por orgulho, raiva e incapacidade de abrir as comportas do coração. Perdoar é abrir caminho para o amor e reconciliar-se com o outro.

Se desculpar até pode ser uma rotina, que pouco ou nada transforma e que alguns nem se dão ao trabalho de verbalizar, limitando-se a dizer que sim com a cabeça, “Estás desculpado”. Perdoar renova, recupera laços, liberta quem dá e quem recebe, transforma o não dito em confissão, coloca as ofensas em palavras num confronto directo, e por vezes difícil, com a dor provocada e o sofrimento calado.

Desculpar é calcar a mágoa para dentro de uma mochila que, com o tempo, dificulta o caminhar. Perdoar é desenterrar essas mágoas, libertar o outro num abraço e seguir em frente.

A Páscoa não é um tempo de desculpas, mas de perdão. Não é um tempo de “faz de conta, já passou”, mas de intenso reencontro e libertação.

O Amor que cresce não é o que se guarda, mas o que se dá.

 

(publicado no Açoriano Oriental, a 4 de Abril 2010)

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