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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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13
Abr10

Os muros que nos separam

sentirailha

Foi notícia de jornal. Uma manifestação de moradores, de um empreendimento a custos controlados, reclamou da presença de alguns vizinhos, a residir no mesmo bairro mas que, como se podia ler nos cartazes, não estariam a pagar o custo dessas habitações ao banco.

Para os manifestantes, esses outros não podiam ter o direito de morar na mesma tipologia de casas. Afinal, se o governo pretendia apoiar essas famílias, que o fizesse num outro lugar, quem sabe na periferia das cidades, em lugares esquecidos como o bairro de Sto. António, vulgo, Peixe Assado. Aí não incomodam. Se têm problemas, ninguém fica a saber e se os filhos não vão à escola ou as mães não têm com quem os deixar, é um problema que apenas a eles diz respeito.

Para os moradores que se manifestavam, auto apelidados de trabalhadores, com compromissos financeiros, o mundo divide-se pelo menos em dois. Os que têm trabalho, famílias supostamente estruturadas e os outros, que vivem de prestações, desempenham tarefas pouco qualificadas, que vivem em famílias numerosas, por ventura, tendo por rendimento o salário mínimo.

Não são dignos de morar paredes meias, quem vive de apoios do estado e quem possui um emprego, mesmo que de baixo rendimento. Houve mesmo quem dissesse que esta convivência iria desvalorizar o bairro, como se a qualidade da comunidade se medisse apenas pelos rendimentos dos seus moradores. O valor das casas iria baixar e um bairro de custos controlados, ganharia o rótulo de bairro social.

Mas que modelo de sociedade pretendem estes manifestantes? Em que bas

es fundamentam o prestígio da comunidade onde residem? No estilo das casas, nos acabamentos ou na conta bancária dos moradores? Não terão perdido o sentido mais profundo do que é viver em comunidade, que sente a solidariedade na vizinhança e promove iniciativas colectivas?

Que comunidade pretendem construir esses moradores, que se recusam a partilhar o mesmo espaço com quem vive em dificuldade e se arrogam o direito de julgar os outros, pelo modo como se vestem ou pelas compras que trazem da mercearia.

Integrar, incluir, implica aceitar e cooperar. Não é compatível com individualismo ou espíritos farisaicos que se julgam imunes às dificuldades. O que aconteceria a um desses moradores, se por ventura deixasse de poder pagar a prestação da casa e passasse a ser ajudado pelo Estado? Será que também ele deveria abandonar o bairro?

A solidariedade não é uma prática administrativa, mas uma forma de relacionamento social. Não depende do montante das dádivas, mas da construção de projectos comuns. É uma acção de duplo sentido, que compromete quem dá e quem recebe.

Dificilmente seremos uma sociedade coesa, escorraçando vizinhos e apontando o dedo a quem recebe apoios sociais do Estado, como se os pobres devessem andar com rótulos. Todos saberiam quem são, nas escolas, nos empregos, na rua e, particularmente nos bairros.

Há mesmo quem afirme que tudo seria mais fácil se fossem distribuídas senhas de comida, rações de bens essenciais, de acordo com os critérios de quem paga. Como se a pobreza fosse apenas fome e sinónimo de incapacidade.

Há muros que ainda nos separam. Alguns, visíveis como as paredes de um bairro, outros que se escondem nas palavras e nos gestos que dividem o mundo em “os nossos” e “eles”, vizinhos sem nome que dão má fama ao bairro.

(Publicado no Açoriano Oriental de 12 de Abril 2010)

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