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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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25
Abr10

O desamor

sentirailha

“Ele está tão diferente!”, “Ela é a sombra da mulher que conheci”.

Ao fim de alguns anos de vida em comum, há quem não reconheça a pessoa com quem vive há vários anos. O que aconteceu entretanto? Porque motivo ele ou ela parece diferente ou se comporta como se já não estivesse em sintonia, ligado à vida que um dia decidiram montar os dois em conjunto.

O desamor é um processo de desgaste lento, que corrói as fundações de uma relação. Vai destruindo por dentro, como as térmitas fazem na madeira, muitas vezes sem ninguém se aperceber. Fragiliza o amor, sempre que o sofrimento não é partilhado; desfaz aos poucos as ligações, em cada ausência não justificada, em cada traição não perdoada. Aos poucos, perde cor e consistência, torna-se poroso e deixa de ser capaz de suportar a mínima frustração.

Mas, se o desamor pode corroer por dentro, há quem nunca se aperceba disso e viva como num conto de fadas, dentro de um castelo de fantasia, onde está sempre tudo bem ou então silencia comportamentos violentos, procurando explicação para as humilhações diárias, que diz aceitar por amor.

Aos poucos o desamor instala-se e a relação fica cada vez mais ténue, um traço que outrora era um cabo, transforma-se numa linha quebradiça, que reage à mínima contrariedade.

Porque motivo há cada vez mais casais que se desencontram no amor? Machado Vaz diria que herdamos uma visão romântica da vida amorosa, povoada de mitos e fantasias, que não tem em conta a realidade e a pessoa que é o outro. Apaixonados, inebriados por se acharem diante da alma gémea, dificilmente reconhecem os defeitos ou se atrevem a aprofundar os motivos do desentendimento.

É importante crescer numa relação amorosa. Aprender a descobrir as diferenças e a gostar do outro na sua individualidade. Construir um espaço comum, sem destruir os recantos da privacidade é um processo contínuo, feito de alguns grandes momentos e de muitos pormenores.  

O desamor é sempre um sintoma de frustração. Porque se criaram expectativas que não tinham fundamento e se ficou à espera que o outro mudasse com o tempo. Porque ninguém ensinou a ser tolerante diante das perdas ou educou para que se reerguesse depois de falhar, lida-se mal com a realidade, que raramente corresponde ao sonho.

O desamor é também um sinal de como se pode viver apaixonado por uma imagem e, um dia, acordar diante da pessoa, em torno de quem se construiu essa fantasia.

No silêncio da rotina sem sabor, o desamor instala-se e corrói como a térmita, mostrando que, numa relação, a preguiça e a acomodação são pragas a combater.

O amor é possível, mas exige que sejamos realistas e procuremos descobrir no outro a sua essência. Exige que se conciliem diferenças, se potenciem virtudes e se transformem as fraquezas individuais em forças partilhadas. O que daí resulta, nem sempre é perfeito, mas enquanto se procurar essa ligação, vive-se numa sintonia que afina com o tempo e constrói um espaço, uma relação, onde nos sentimos em casa e nos movemos sem esforço.

O desamor pode não acontecer, se todos os dias o amor for renovado e reinventado.

(publicado no Açoriano Oriental, 19 Abril 2010)

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