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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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02
Mai10

As palavras libertam

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A palavra é um instrumento com força de libertação, que confere cidadania e transforma um indivíduo em pessoa. Livre, a palavra incomoda os ditadores e todos aqueles que se acham donos do poder que os lugares lhes conferem. Quando não conseguem calar as vozes inconvenientes, recorrem à censura, mais ou menos declarada, feita com lápis azul ou regras que silenciam palavras incómodas.

A palavra tem força, porque carrega dentro de si um significado literal e a realidade que nomeia. É um revelador dos estados de alma, que veicula a intensidade das emoções e dos afectos, e pode ser utilizada como instrumento de pressão e persuasão, unindo ou separando as pessoas.

A palavra tem tal força que, retirar esse direito a alguém constitui uma forma de condenação ou penalização.

A palavra, dita ou escrita, liberta. Por isso, se há diferença que marca os tempos do antes e do depois de Abril de 1974 é o ganho em liberdade de expressão. Uma liberdade visível no modo como hoje se aborda a diversidade de pensamentos, se consideram as minorias sociais, se encara a multiculturalidade e se promove o direito à escola para todos.

Porque a palavra liberta, falar de cidadania é assumir, entre outros, o direito de criticar, denunciar, reivindicar e reclamar. Ninguém tem o dever de calar a injustiça ou a violência de que é vítima. Os tempos em que se engoliam as palavras e se apaziguavam conflitos abafando as vozes contrárias, têm de ser enterrados.

A palavra liberta. Liberta o homem e a mulher dos seus receios, equívocos e preconceitos, quantas vezes enraizados em falta de informação ou incapacidade de questionar e pedir esclarecimentos. Uma palavra não dita é uma dúvida que se avoluma.

Nos tempos que correm, apesar de vivermos com liberdade de expressão e de não precisarmos de esconder sentidos nas entrelinhas para passar uma mensagem, corremos outros riscos, particularmente o de esquecermos a força das palavras. Quando deixamos que os meios tecnológicos ocupem o tempo que deveríamos reservar à conversa, à tertúlia ou a um serão em família; quando mutilamos a língua escrita, para a fazermos encaixar em curtas mensagens electrónicas e sms de telemóvel, é a palavra que está em risco.

As palavras fazem parte do património cultural, que descobrimos desde o nascimento e que nos torna membros de um povo. Através delas mergulhamos no conhecimento. Com elas, descodificamos o mundo, assumimos uma identidade e um sotaque.

As palavras são sínteses de sentido, espelhos da alma onde o ser humano se revê. Janelas de conhecimento que se abrem, por exemplo, em relato de viagem, resultado de investigação, notícia ou texto de opinião.

Escrever palavras é um exercício de liberdade e os jornais são uma das suas expressões mais significativas. Por isso, registo e congratulo-me com a passagem dos 175 anos, recentemente festejados, do Açoriano Oriental. Um jornal que atravessou três séculos de história, divulgando palavras que libertam.

(publicado no Açoriano Oriental de 26 de Abril 2010)

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