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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Famílias recompostas

“Tu não mandas em mim porque não és o meu pai!”

Esta é por ventura uma frase que muitos padrastos já ouviram.

Padrastos? Sim, porque em português é a única designação formal que existe para quem casa com uma mulher que já tem filhos de uma relação anterior.

Apesar da carga negativa que a palavra comporta, sobretudo quando é dita no feminino, madrasta, hoje em dia há cada vez mais famílias onde um dos cônjuges não é o pai ou a mãe das crianças.

São as chamadas famílias recompostas. O casal ou os pais vivem neste contexto uma relação complexa que pode envolver crianças, a quem designam de meus, teus ou nossos filhos. As crianças descobrem que, para além dos irmãos, têm meios-irmãos e quase irmãos, estes últimos filhos do amigo da mãe ou da amiga do pai e que, por esse facto, não têm com elas qualquer laço de sangue.

Nas famílias recompostas, os afectos sobrepõem-se às questões do sangue. A partilha de uma vida em comum é mais importante do que a biologia. Mas, porque nada está definido à partida, a vida numa família recomposta é certamente mais complexa do que num qualquer outro tipo de família.

Se, por um lado, as crianças mantêm os laços com os seus avós paternos e com o pai biológico, por outro, a mãe, que entretanto voltou a casar, traz para a vida dessas crianças um novo grupo de pessoas e de relações familiares. Desde logo o padrasto ou o namorado ou amigo da mãe, quase sempre tratado pelo nome próprio, que altera e redefine o próprio papel da mulher. Ao mesmo tempo, mãe e esposa de alguém que não é o pai dos seus filhos, cabe-lhe a tarefa de gerir um conjunto alargado de relações, por vezes conflituosas.

Nas famílias recompostas a vida quotidiana é uma permanente construção na busca do equilíbrio e do bem-estar de todos. É certo que o divórcio resulta de uma relação conjugal que termina, mas quando existem filhos, também é certo que dificilmente se podem cortar os laços que unem as crianças aos seus familiares de sangue, que fazem parte do seu mundo de referências culturais e sobretudo, afectivas.

Por razões diversas, os tribunais conferem em geral às mães o poder paternal, o que limita de forma clara o contacto diário com os pais. Apesar disso, as crianças necessitam de equilíbrio emocional e meios de sobrevivência mesmo que tenham de viver em dois quartos de cama, duas casas e por vezes duas famílias, a da mãe e a do pai.

Não é fácil, mas é necessário, criar espaço para todos, criar condições para que cada individualidade se desenvolva e transformar a circulação das crianças entre a casa do pai e a da mãe, num enriquecimento afectivo e não numa fonte de conflito e competição.

Famílias recompostas, designação sociológica que enquadra um fenómeno recente, mas cada vez mais frequente, de famílias de divorciados com filhos.

Como em qualquer outro tipo de família, não são os laços de sangue que garantem os afectos, mas sim a partilha de uma vida quotidiana, a cooperação na resolução de dificuldades e o convívio entre todos que proporcione bem-estar. Não é o tecto que define a família mas a proximidade entre os corações daqueles que se consideram como tal.

Como refere a socióloga Cristina Lobo, quando se entra numa família recomposta é como quem começa a ler um livro pela metade. Um novo capítulo começa, mas o presente escreve-se com a história passada.

(publicado no Açoriano Oriental, 1 de Outubro 2007)

piedade.lalanda@sapo.pt

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