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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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A transparência da máscara

De rosto pintado, o palhaço carrega no traço que contorna os olhos e os lábios e constrói uma figura alegre, supostamente divertida, que provoca sorrisos, mesmo antes da sua actuação. O palhaço compõe um personagem, que depois recheia com a sua actuação, escondendo a identidade verdadeira do actor. Ninguém reconhece o palhaço quando este retira as pinturas e guarda a máscara divertida na mala de circo.

Somos todos um pouco palhaços na vida.

Os outros olham-nos de fora, apreciam as roupas que vestimos, comentam o corte de cabelo, elogiam os sapatos ou o anel de noivado. Mas nem sempre reparam em nós, por detrás desses acessórios. Não vêem a tristeza que escapa no olhar e não se apercebem que vivemos mal com os quilos a mais, a ruga que se formou na testa ou o pneu que não há maneira de desaparecer.

Como se estivéssemos por detrás de uma máscara, sentimos que poucos nos conhecem ou se apercebem que somos mais do que aquilo que mostramos.

É a palavra que nos revela, são os sentimentos e as emoções que nos traem, é aquela lágrima de emoção que dá brilho ao olhar ou a voz que, sem querer, fica baça, que dá transparência ao disfarce que vestimos.

Há quem se julgue protegido, porque elaborou uma máscara perfeita. Veste roupas de marca, cuida da pele e até enche as rugas para disfarçar o envelhecimento precoce; pinta o cabelo, cuida das unhas e não há um fio fora do sítio. Tudo parece perfeito, o perfume, a maquilhagem, a escolha das cores e a composição da indumentária.

Esquecem-se de controlar o olhar. É por aí que são traídos, pelas palavras que escapam sem se darem conta ou a postura das mãos, inquietas e suadas. Nessa hora, a máscara começa a ficar transparente desvendando sentimentos confusos, inquietudes escondidas, tristezas não reveladas.

Não é fácil penetrar nessa dimensão humana que se esconde detrás das máscaras sociais, desconstruir personagens diluídos numa massa anónima.

Ser pessoa até pode significar ser personagem, numa alusão ao teatro da vida que é estar em sociedade. Mas, se todos reconhecem que dentro de um palhaço há alguém que vive de outro modo, por detrás da imagem que cada um de nós procura transmitir, há um ser que sente, sofre, vive alegrias ou ansiedades, nem sempre reveladas. Alguém que não diz tudo o que pensa e que observa, do lado de dentro de si mesmo, as reacções dos que comentam sem perceber, criticam sem conhecer, apreciam sem avaliar o que realmente somos.

A máscara faz parte do nosso dia-a-dia, sempre que nos olhamos ao espelho, para pentear o cabelo, disfarçar as olheiras, fazer a barba ou apertar a borbulha que resolveu crescer mesmo no meio do nariz.

Afinal quem somos? Até que ponto damos transparência a este disfarce diário, fazendo passar emoções e sentimentos, afirmando aquilo em que acreditamos, assumindo posições, defendendo causas e esgrimindo argumentos?

Quando alguém se esconde e se refugia em modelos pré-definidos, torna-se numa pessoa vazia de ideias, opaca. De tanto esconder o que sente, endurece a máscara e perde a capacidade de ser transparente.

A felicidade depende da capacidade de viver, na pessoa que somos, dando transparência às máscaras que a vida nos impõe.

 (publicado no Açoriano Oriental, 2 de Agosto 2010)

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