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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Assinar a rogo!

“Importa-se de assinar este documento, a rogo desta senhora?

Assinar como? É que esta senhora não sabe escrever e não lhe podemos dar o dinheiro da pensão se não houver alguém que assine por ela. Infelizmente a senhora não veio acompanhada por um familiar ou pessoa amiga.”

Este pequeno episódio, que vivi recentemente, permitiu sentir o peso do analfabetismo que alguns idosos carregam como um fardo. Com setenta e sete anos, esta senhora, capaz de fazer a sua vida e tratar dos seus assuntos, está limitada nas suas decisões, porque não sabe ler nem escrever. Bem pode usar a marca digital, como prova da sua identidade, mas fica-lhe a faltar a garantia que o nome assegura. Uma simples assinatura, tão fácil de fazer, representaria para esta idosa um enorme poder e um sentimento de autonomia. Insisti que nunca é tarde para aprender, nem é impossível passar a assinar com o seu punho os documentos do banco ou outros.

“Como eu gostaria menina! Mas com esta idade!”

Setenta e sete anos, sem saber ler ou escrever porque alguém lhe negou essa possibilidade, quem sabe para que ficasse em casa cuidando dos irmãos, ajudando a mãe, trabalhando a terra ou simplesmente, esperando que um namorado aparecesse para casar e passar a cuidar da sua própria família. Não é um caso raro, se tivermos em conta que em 1940 a taxa de analfabetismo entre as mulheres portuguesas era de quase 60%. Passados 61 anos, o recenseamento de 2001 regista uma taxa de 12% de mulheres portuguesas analfabetas. É sem dúvida uma grande diminuição, mas infelizmente, ainda não nos coloca ao nível de outros países europeus. A herança do analfabetismo que os governos democráticos receberam após 1974 não foi completamente ultrapassada. E, infelizmente, ainda hoje, muitas jovens abandonam a escola sem terem atingido o que a legislação considera de escolaridade básica.

Se é importante e fundamental investir na promoção da escola junto da população jovem, é um desafio ainda maior levar o saber ler e escrever aos mais idosos. Provavelmente tal ganho teria repercussões na saúde mental daqueles que vivem sozinhos, e passam o tempo recordando com mágoa as oportunidades que lhes foram negadas. Mais autónomos para ler uma receita do médico, o folheto de um medicamento ou terem acesso à informação impressa, idosos que sabem ler e escrever são por ventura mais felizes.

Mas, voltando ainda à senhora com setenta e sete anos, “porque não trouxe ninguém?”. Sabe, as minhas netas estão estudando, uma tem dezassete e a outra quinze. Não as quero prejudicar nos estudos.

A solidariedade entre gerações é importante, mas como em outras áreas, ser solidário é sempre um acto de cumplicidade entre quem dá e quem recebe, num gesto desinteressado de quem recebe dando.

Quem sabe, se os mais novos, esses netos de avós analfabetas, não se dispõem a um gesto de solidariedade e lhes ensinam a escrever, pelo menos o nome. Em troca, talvez, fiquem a saber alguma receita antiga, aprendam um ponto de croché ou simplesmente recebam um conselho sábio de quem já viveu muito tempo e sofreu na pele os efeitos de um país que, no passado, não investia nas competências das pessoas.

(Publicado no Açoriano Oriental a 15 Outubro 2007)

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