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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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17
Nov10

Zaping feminino

sentirailha

Poucos serão aqueles que, vendo televisão, nunca experimentaram o “zaping” termo anglo-saxónico que caracteriza o acto de correr os canais, sem se deter num, por mais de alguns minutos.  

Mas, se o zaping está sobretudo associado à relação com a televisão, o certo é que podemos utilizar este termo para descrever a vida de muitas mulheres, particularmente as que têm uma actividade remunerada, que fazem zaping entre as várias actividades diárias.

Imaginemos um dia na vida de Cristina, um retrato que poderia se aplicar a outras mulheres.

Cristina é casada e aos quarenta anos, é professora e mãe de três filhos com menos de 12 anos e marido trabalha numa empresa de construção civil.

De manhã, levanta-se sempre pelas sete horas; enquanto chama os filhos para a escola, por vezes mais do que uma vez, prepara a mesa do pequeno-almoço, orienta o que será a refeição seguinte, verifica se a sala está arrumada e acaba por ajudar a filha mais nova a se vestir. Enquanto as crianças comem, toma duche, mas não perde tempo; porque não fica à espera que a água do chuveiro aqueça, aproveita para fazer a cama, recolher a roupa suja e arejar os quartos dos filhos. Depois, tira algum tempo para se vestir e colocar uns brincos. Repara que tem de arranjar as unhas, mas não há tempo.

Os filhos vão sair, desta vez o pai é que os vai levar à escola, e isso dá-lhe algum tempo para deixar a mesa posta e o almoço adiantado, antes de começar mais um dia de trabalho.

De regresso a casa, ainda não pousou a mala e já tem o fogão aceso. Falta só acabar o esparguete e os miúdos entram pela porta, gritando as novidades. O dia está longe de ter acabado e Cristina ainda tem de anotar as faltas da dispensa e relembrar os sacos de desporto, pois hoje é dia de levar o mais velho ao basket e a mais nova à natação.

Quando chega o fim da tarde, é hora de trabalhos de casa e de dar aquela ajuda para incentivar sobretudo a mais nova, que preferia mil vezes brincar do que estar sentada a escrever.

Entre ajudar um e outro, por o olho à panela que ferve, estender a roupa, encaminhar os três para o banho de fim de dia e jantar, Cristina não pára antes das nove da noite. Finalmente, um pouco de televisão e um tricot para relaxar. É hora de silêncio. Os miúdos estão deitados, ou pelo menos, ela assim julga e os mais velhos podem falar do que foi a jornada. Estão os dois cansados, mas Cristina não pode deixar de desabafar que tem demasiadas preocupações a seu cargo. A casa, a comida, a roupa, o cuidar dos filhos, as regras a ensinar e a fazer cumprir são ainda tidas por tarefas das mulheres, ou melhor, das mães e ela sente que a sua vida é um zaping permanente, entre a cozinha e o quarto, entre o emprego e a casa, entre os filhos e a roupa, entre o marido e ela. Será que não podíamos partilhar mais ou melhor esta vida quotidiana, questiona, quando finalmente se encontram os dois?

Parecendo que não, acabo o dia esgotada, adormeço no sofá logo que me sento. Sei que isso não ajuda à nossa vida conjugal, comenta Cristina. Mas o que podemos fazer?

No fundo, os dois conhecem a resposta, mas cada um à sua maneira não põe em prática a única forma de acabar com esse zaping e poder viver com mais tranquilidade. Bastaria partilhar, dividir, co-responsabilizar e cooperar.

(publicado no Açoriano Oriental de 8 Novembro 2010)

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