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23
Nov10

Sentido de responsabilidade

sentirailha

Li algures uma história que pode ser resumida desta forma: um pedreiro trabalhava na construção de casas para famílias carenciadas. Um dia, a empresa onde estava empregado pediu-lhe para construir mais uma casa. À semelhança do que habitualmente fazia, o pedreiro reduziu no aço e no cimento, cuidou pouco da qualidade dos materiais e dos acabamentos e foi pouco rigoroso nos detalhes. Para seu grande espanto, ao entregar a obra concluída, o empreiteiro referiu que, desta vez, a casa construída era para ele, em sinal de reconhecimento pelo trabalho feito. Era tarde para reparar as aldrabices. Entristecido, o pedreiro pensou, “se eu soubesse, teria trabalhado com outro rigor!”

A responsabilidade não é compatível com uma forma aparente e fugaz de agir, mas antes é uma consequência directa do compromisso que assumimos com os outros, que em nós confiaram e que de nós esperam colaboração, ajuda, conhecimento ou disponibilidade para servir.

Quem não é íntegro, dificilmente pode ser responsável. Quem não é profissional no seu trabalho, nem cuidadoso nas tarefas que desempenha; quem não assume os erros que comete e esquece os compromissos assumidos, porque agora não convém ou porque surgiram outras solicitações, desconhece o valor da responsabilidade.

Ser responsável é viver com sentido dos outros, cooperando e, ao mesmo tempo, interpretando as suas reacções e críticas. A responsabilidade significa ser capaz de dar resposta, perante os desafios do momento e as opções a tomar.

Hoje fala-se muito da responsabilidade dos políticos, dos governos, alvos fáceis para a crítica quando estão em causa dificuldades acrescidas. Mas, raramente, alguém aponta o sentido de responsabilidade individual. Afinal, o mundo é feito, em primeiro lugar de cidadãos, que todos os dias fazem escolhas: entre trabalhar ou não, entre estudar ou simplesmente ocupar o tempo na escola, entre colaborar e cooperar ou depender dos apoios dos outros.

É urgente reaprender o valor da responsabilidade.

Não podemos levar os jovens a julgar que a vida se faz apenas de e com sensações ou experiências do momento, e que se pode viver sempre de forma descomprometida. É preciso reafirmar a urgência do compromisso. Não se trata de prender, mas de interligar. Não é compatível com individualismo, mas antes dá sentido aos problemas que outros atravessam e que, directa ou indirectamente, também passam por nós.

Seja em que domínio for, a responsabilidade está sempre associada a uma postura de profunda humildade. Afinal, o que representa a minha vida no fluir da história do povo a que pertenço ou na construção da sociedade onde vivo? Não sou mais do que um grão de areia, um bloco numa construção, um elo numa cadeia. Mas sem mim, tudo seria diferente. Imaginem os obreiros que construíram os Jerónimos! A maioria deles não conheceu o edifício final, mas todos foram importantes para a sua construção.

Ser responsável é ter noção do impacto que as nossas vidas e as nossas decisões têm na vida de outros e ter consciência de que há erros que podem comprometer a felicidade de uma geração.  

A responsabilidade é como a consistência, confere autenticidade, segurança e credibilidade aos actos dos cidadãos, independentemente da posição social que ocupam ou do grau de poder que detêm.

 (publicado no Açoriano Oriental de 22 Novembro 2010)

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