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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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À procura do espírito de Natal

Percorro as ruas à procura do espírito de Natal e todos me dizem que é fácil encontrá-lo. Basta que preste atenção às canções que se ouvem nos altifalantes. Falam de pinheiros e de prendas, contam histórias de neve e de Pais natal que viajam em trenós de renas.

Mas, apesar dessa toada musical, pontuada pelo som dos sinos, não consigo sentir o espírito de Natal.

Há mais, dizem-me as vozes da rua, não desistas de encontrar. Procura as casas que brilham na noite, com luzes no telhado, nas paredes e nos jardins. Repara como, nesta altura, as pessoas andam numa azáfama; compram de tudo, carregam pacotes enfeitados. Umas mais do que outras aproveitam para vestir a família, decorar a casa e alegrar os mais novos.

Até parece que esse é o espírito de Natal, porque a dádiva e a troca são práticas de solidariedade que rompem com o espírito comercial, invertem os interesses que, na maioria dos casos, estão por detrás das transacções económicas. O Natal é um caso à parte. Compramos para dar, queremos mimar alguém com prendas, que julgamos irem agradar, porque foram compradas a pensar nessa pessoa. 

Não será que o espírito de Natal está aí presente nessas dádivas generosas? Mas, reparo que, no meio dessas compras todas, que deveriam ser gestos de amizade e de amor, há quem gaste pequenas fortunas, não porque o outro merece, mas para não ficar atrás, para parecer maior e se sobrepor ou ser comparável às prendas dos outros.

A boneca foi a maior, que é para a afilhada ficar com boa imagem da madrinha.

O equipamento de jogos foi o mais caro do mercado, para que o filho possa dizer na escola que tem o último modelo.

A televisão foi trocada, por uma com tantas funções que só de manual nas mãos.

Afinal, será que é esse o espírito de Natal, será que deve ser esse o significado das prendas?

Abandono as ruas, fecho as janelas às luzes e ao som dos altifalantes e procuro no sótão as caixas com os bonecos de presépio, embrulhados em papel de jornal, que me esperam há um ano, para que lhes dê vida.

Preparo o lugar do presépio, com musgão, pedras, ramos de cedro e paus que recolhi no campo. Recomeço o ritual de montagem deste espaço fora do espaço, onde se conta a história do nascimento de Jesus e se congregam os que o veneram, desde os pastores com as suas ovelhas, às mulheres que transportam cargas à cabeça até outras figuras, mais recentes, representando cenas tradicionais.

Acendo uma vela, coloco os pratos de ervilhaca e de trigo e deixo que a luz ilumine estas figuras de barro, que me contam histórias de outros natais e me fazem sentir criança.

Afinal, o espírito de Natal existe. Está presente ali, no silêncio daquelas imagens que transformam o recanto da minha sala num lugar de oração e renovam o mistério do nascimento de um Jesus, feito menino, que incarna os problemas mais graves da humanidade: a rejeição do homem da estalagem, que lhe oferece um estábulo para nascer; o frio de um lugar sem condições; a contradição de uma vida simples, de um reino de amor diante de um povo que esperava um Rei com armas e poder material.

Afinal o espírito de Natal existe, mas só se descobre na paz e no silêncio, no coração das pessoas e nos gestos de amor.

(publicado no Açoriano Oriental, 20 Dezembro 2010)

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