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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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O espírito voluntário

O voluntariado é uma prática que nasce das boas vontades, da necessidade que todo o ser humano sente de participar na vida colectiva e de ser reconhecido por esse contributo.

Há muito que existem voluntários. A vizinha que partilha o almoço com outra vizinha mais idosa, que vive com dificuldades; a neta que dorme em casa da avó, que receia ficar sozinha; o empregado que dá catequese aos sábados ou ajuda um amigo a podar as árvores e a rachar lenha.

Sempre que alguém presta um serviço, porque acredita na solidariedade, no espírito de serviço, na defesa do ambiente ou na luta contra a discriminação e é sensível à solidão ou ao abandono dos outros, é um voluntário.

Para além destes muitos voluntários, anónimos que ajudam o próximo, hoje temos movimentos organizados de voluntariado, nos hospitais, nos lares de acolhimento de idosos ou crianças e em muitas outras áreas e até empresas, mobilizando a disponibilidade das pessoas, inclusive quem está empregado, para cuidar ou pensar nos outros.

Registo com respeito e simpatia o serviço que alguns idosos prestaram durante anos, junto às escolas do primeiro ciclo, no concelho de Ponta Delgada. Foi uma iniciativa camarária, ao que sei, compensada financeiramente, mas que contava, sobretudo, com o espírito de serviço dessas pessoas.

No início deste ano, entendeu a autarquia substituir esses idosos por agentes da polícia municipal. Não sei se para poupar uns trocos ou para dar que fazer a esses agentes, mas o certo é que se perdeu a qualidade do serviço que era prestado.

Não acredito que os dois senhores com quem me cruzava, todos os dias, junto à escola da Matriz, na Rua José do Canto, estivessem ali, fizesse chuva, frio ou sol de rachar, apenas pelos euros que a Câmara pagava ao fim do mês. O cuidado com que ajudavam as crianças, o bom dia que lhes diziam, saudando muitas delas pelo nome, ajudando os mais debilitados, revelava sentido de serviço e espírito de voluntariado.

No lugar destas pessoas, que mereciam o nosso apreço e que mostravam aos jovens que a idade não é um obstáculo à participação cívica, a autarquia pôs agentes de farda florescente, que se limitam a ficar especados no passeio, com um auscultador no ouvido e boné enfiado até às orelhas. Pouco ou nada intervêm no trânsito, nem precisam de usar o sinal de stop, pura e simplesmente, porque não estão ali para prestar um serviço, mas para cumprir uma obrigação.

Imagino que não reconhecem os meninos que todos os dias atravessam, não lhes dão bom dia e se forem destacados para ordenar o trânsito noutra esquina qualquer, não ficam com saudades daquela escola, nem das crianças que, supostamente, deviam ajudar a atravessar a rua.

Faço aqui uma sincera homenagem aos senhores que foram afastados pela autarquia de Ponta Delgada, da tarefa de ajudar as crianças junto às escolas, particularmente os que diariamente tinha o gosto de cumprimentar e que prestavam este serviço como avós que cuidam de netos.

Acredito que o voluntário humaniza a participação cívica e qualifica o tempo que se disponibiliza para os outros.

(publicado no Açoriano Oriental, 24 Janeiro 2011).

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