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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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A solidariedade dos pobres

Quando a necessidade aperta, a aflição atinge a casa do vizinho ou o trabalho exige mais braços, a solidariedade acontece nas aldeias, nos meios rurais, nas casas menos abastadas, nas relações daqueles que há muito se conhecem.

Quase nem é preciso pedir. Há sempre alguém que aparece para ajudar. Em troca, quando precisar de apoio ou porque faltam ovos para o almoço, outros virão retribuir essa ajuda, com a mesma disponibilidade.

De acordo com um estudo da comissão europeia, são os pobres deste país quem mais suporta a austeridade. Diz esse estudo que Portugal “é o único país com uma distribuição claramente regressiva, onde os pobres estão a pagar mais do que os ricos, quando se aplica a austeridade”. Para além dos sacrifícios estarem a ser pedidos de forma desigual a ricos e pobres, segundo refere o texto da união europeia, aumentou o risco de pobreza, particularmente entre idosos e jovens. (cit. C. Manhã de 4Jan12).

Depois de Portugal ter conseguido em cinco anos e com transferências sociais, baixar a taxa de risco de pobreza de
20% (2005) para 18% (2010), em seis meses, com as medidas adotadas pelo atual governo da República, o país voltou a registar uma taxa de pobreza de 20% e agravou a distância entre os que mais possuem e os que vivem abaixo de 60% do rendimento médio do país.

Responsáveis políticos enchem o peito de satisfação, porque agora sim, não vai haver quem se aproveite dos apoios sociais, como o rendimento social de inserção, para malandrar e vai ser possível “separar o trigo do joio”, como referiu o ministro Mota Soares. Agora sim, os “falsos pobres” que o sistema deixou passar, apesar de todos os comprovativos e processos de fiscalização, vão deixar de receber esses benefícios sociais. E, pasme-se, são esses carenciados que o sistema aceitou, que vão contribuir para aumentar as pensões mais baixas dos mais idosos.

Ser solidário sempre foi um comportamento que desinstala quem mais pode dar. Um estado não pode achar que é solidário porque tira a quem menos tem e que pediu ajuda, para compensar quem dela também precisa. Um estado não pode ser justo se não mexer em quem mais tem e deixar que esses fujam aos impostos ou não declarem rendimentos.

É pura hipocrisia, anunciar um aumento de 7 euros numa pensão de miséria e ao mesmo tempo agravar o preço dos transportes públicos, aumentar o custo da eletricidade e da água, taxar no máximo bens de consumo, aumentar o preço do pão e dificultar o acesso aos cuidados de saúde.

Entre os que menos têm sempre houve solidariedade em gestos diários, mas só quem deles beneficia pode confirmar. Aliás, é bíblica a história da dádiva silenciosa e anónima de uma viúva pobre que contrasta com a arrogância do rico, que mostra a todos a sua esmola.

Não basta partilhar refeições e vestuário. Se queremos mudar este país, há que ser capaz de incomodar corporações e grupos profissionais que não abdicam de privilégios, empresários que não respeitam os direitos dos trabalhadores ou funcionários que desperdiçam
os bens públicos.

Um governo que se envergonha de ajudar os mais pobres e recusa “novas oportunidades” a quem não concluiu a escolaridade obrigatória não é solidário e muito menos é justo.

Não é vergonha termos dificuldades. Vergonha sim é sermos o único país da Europa que protege os ricos e põe os que menos têm a suportar a crise.

(publicado no Açoriano Oriental, de 9 Janeiro 2012).

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