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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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A tentação de comprar

Em tempo de Natal é forte a preocupação com as compras, que se querem “boas”, “baratas” e “úteis”. Tarefa difícil, quando se quer limitar os gastos em tempos de aperto, como se o tempo de fartura alguma vez tivesse acontecido. O que havia, isso sim era uma menor oferta e uma menor possibilidade de escolha.

Longe vão os tempos em que no Natal era a época em que se renovava o guarda-roupa e as prendas cabiam num sapato ou numa meia. Hoje as ofertas querem-se grandes, caras e vistosas. As bonecas já não são vestidas pelas mães, que costuravam as roupinhas de acordo com a moda; vêm embaladas em caixas enormes, têm nome e interagem com a criança. Parecem recém-nascidos ou então crianças em idade das primeiras palavras, e até trazem incorporado um sistema que lhes permite dizer “mamã, gosto de ti”. Diga-se a propósito que estes bonecos falantes não dizem papá! Quem inventou o tal mecanismo de voz, por ventura achou que ninguém iria oferecer um tal brinquedo aos rapazes ou que estes nunca iriam brincar, aos pais e às mães, com as suas irmãs ou com as suas colegas.

Ao lado das bonecas, surge a prateleira dedicada aos rapazes, onde abundam os carros de combate, os bonecos de “wrestling” que a televisão promove, e outros brinquedos mecânicos, induzindo a ideia de que a capacidade de lutar e a arte de construir são atributos masculinos.

Não é fácil comprar brinquedos quando se pretende estimular diferentes capacidades nas crianças. Como contornar a velha divisão entre rapazes e raparigas, que põe de um lado o desporto e do outro o cuidado aos bebés, de um lado o carro e do outro o trem de cozinha?

Comprar, comprar, mesmo quando não se pode.

Enquanto são pequeninos, sempre se pode dizer: escreve ao Pai Natal que ele logo verá se pode ou não comprar. Mas quando se é crescido não é fácil dizer “não” perante tantas possibilidades de compra, sobretudo nas grandes superfícies comerciais.

Experimentam-se roupas, que não se podem comprar, calçam-se sapatos que não se vai chegar a usar, vive-se a fantasia de ter dentro dum provador e sonha-se com novas indumentárias, enquanto dura o passeio por entre expositores carregados de roupas brilhantes e se desfazem pilhas de roupa ordenadas por cores. Como não comprar aquela blusa “tão diferente”, que dezenas de pessoas transformarão em igual?

Uma reportagem recentemente publicada neste jornal aborda a pequena criminalidade que as grandes superfícies estimulam. Ao que consta, há mais casos de roubos por corte de alarmes, sobretudo feitos por adolescentes que não conseguem controlar a tentação de ter. Em alguns casos, apanhados em flagrante, e depois de chamados os pais para pagarem os danos, conclui-se que até vivem em famílias com algum poder de compra.

Então se não é o dinheiro que lhes falta, porque motivo se apropriam indevidamente destes bens? Faltam sentido de responsabilidade e capacidade para definir prioridades; faltam princípios que orientem as escolhas entre o que devem ou não fazer, entre o que está certo ou errado. E isso, não se compra, ensina-se, tarefa que cabe prioritariamente à família.

Apesar de nas ruas se ouvir cantar as mensagens de Natal,  que exaltam a paz e a simplicidade, tudo à volta são enfeites, são convites ao consumo e até apelos ao excesso, fazendo esquecer o sentido da festa que estamos a preparar.

Afinal porque se festeja o Natal?

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