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13
Dez07

Ruídos

sentirailha

A arte das relações humanas é sem dúvida a arte do saber dialogar, da delicadeza e sobretudo da empatia, conceito com o qual nem todos concordam mas que encerra em si uma ideia de base, fundamental para a boa convivência: saber se colocar na “pele do outro” ou pelo menos estar disposto a ouvir e a aprender com os pontos de vistas, as opiniões e a experiência daqueles com quem interagimos.

A arte das relações é sem dúvida a arte de comunicar. E uma comunicação eficaz que coloca os interlocutores em sintonia tem de evitar, tanto quanto possível, os ruídos.

O ruído representa para a Psicologia, as interferências ou dificuldades que afectam a qualidade da comunicação. Apesar do termo lembrar o barulho que não é melodia e incomoda, na realidade, numa comunicação humana, ruídos podem ser muitos outros factores e não apenas os barulhos que impedem as pessoas de se entenderem.

Ruídos podem ser as palavras “caras” de um médico que, sem considerar a idade, o nível sóciocultural ou até o estado emocional do seu doente, explica-lhe a sua situação. E, o doente, por vergonha, sem nada entender, acena que “sim “ com a cabeça a tudo o que o doutor diz.

Ruídos são olhares que se desviam ou posições de desinteresse que se adoptam, enquanto o outro fala do que pensa, expõe uma situação ou desabafa um problema.

Ruídos fazem os discursos ou as conversas descontextualizadas, que não têm em conta a realidade do outro, as suas preocupações e parecem apenas servir a quem as diz. “No meu caso eu fiz, eu era, eu tinha”, como se a solução pessoal fosse aplicável aos outros. São monólogos e não conversas que revelam um desconhecimento ou desinteresse da realidade vivida pelos outros. São discursos requentados que não trazem nada de novo, mas enchem o ego de quem os profere.

Quantos problemas não se resolveriam se a comunicação entre as pessoas fosse de qualidade. Quantos mal entendidos não seriam evitados se cada um procurasse estar atento ao outro enquanto fala, enquanto escreve ou toma uma decisão que afecta a vida de outrem.

É certo que nem todos os ruídos são controláveis. Há ocasiões onde o simples facto de alguém estar cansado e não o conseguir evitar, transmite uma imagem contrária ao discurso de optimismo que tenta proferir.

Mas seria muito mais fácil se não se gastasse tanto tempo a desfazer os mal-entendidos, se não fosse necessário responder àquela frase: “eu pensava que o que você queria era…”. “Mas chegou a perguntar o que eu queria?

Talvez fosse bom começar por aí. Em tempo de Natal, em que muitos se afadigam a procurar agradar os outros com prendas, talvez não fosse má ideia começar por ver se os conhecem. Quem sabe, bastará perguntar “afinal de que é que tu realmente gostas? O que é que te dá prazer? Ou melhor, quem és tu? Porque neste Natal eu gostaria de “acertar” na prenda e ajudar-te a sentir aquela felicidade dos mais pequeninos em noite de consoada: oh mãe era mesmo isso que eu queria. Como é que adivinhaste!?”

(Publicado no  Açoriano Oriental, 10 de Dezembro 2007)

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