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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Cuidado! Bebé a bordo.

Sempre me intrigaram os autocolantes que alguns condutores se apressam a colar no vidro traseiro dos seus carros, quando passam a transportar crianças pequenas e bebés.

“Cuidado! Bebé a bordo”, “Gente de palmo e meio a bordo” são algumas das mensagens que surgem como avisos para os que viajam noutras viaturas, sobretudo, para os que circulam na traseira desses carros.

Mas quem deve ter cuidado? O condutor que segue na traseira e que, por ventura, nem leva crianças a bordo, ou o dono desse carro, supostamente, um pai ou mãe de família?

Ainda no outro dia, conduzia devagar num trânsito emperrado que marca o início das manhãs na cidade, e reparei num desses sinais de stop que emoldurava um boneco de chupeta na boca. Dentro desse carro, uma menina, também ela de chupeta na boca, talvez com dois ou três anos, saltava no banco de trás do carro e brincava com uns bonequinhos na prateleira sobre a bagageira. Sem cinto e muito menos sem estar sentada numa cadeira adequada ao seu tamanho e idade, a menina acenava-me com uma mão, enquanto com a outra segurava a chupeta cor-de-rosa. Àquela hora do dia, por ventura a caminho da creche, a mãe conduzia alheia ao que a menina fazia no banco de trás. Para se despachar, e se calhar para não ter de ouvir uma birra, logo no início do dia, preferiu não perder uns minutos em sentá-la com segurança.

Cuidado! Bebé a bordo, dizia o aviso colocado por estes pais, num carro onde aparentemente transportam esta criança sem respeitar as medidas de segurança. Do que receiam, que lhes bata pela traseira! Ou que por circular atrás de um carro com um tal letreiro, iria manter uma distância diferente da que determina o código da estrada?

Chego a pensar se esses avisos não deveriam antes ser colocados no vidro da frente, bem à vista do condutor, lembrando-lhe que uma criança, sentada sem cinto de segurança, que não esteja numa cadeira adequada ao seu tamanho, é facilmente projectada numa situação de travagem brusca ou de acidente.

Para além disso, os pais, enquanto conduzem com segurança até chegarem à creche ou ao jardim-de-infância, podem sempre aproveitar a viagem para conversar sobre o que a criança vai observando, ou simplesmente ouvi-la falar das suas vivências e expectativas em relação a mais um dia na “escolinha”.

Cuidado! Leva uma criança a bordo, é certamente um aviso para pais e sobretudo para condutores stressados, preocupados em picar o ponto a horas, conduzindo apressados, preocupados com as tarefas que os esperam no emprego.

Indiferentes aos mais pequeninos, alguns destes condutores já levam algumas horas a pé, e o dia ainda mal começou. As mães, quase sempre as mães, são sempre as primeiras a se levantar e quando entram no carro, já garantiram que o almoço para os filhos mais velhos, que entretanto deixaram na escola, para depois levarem a mais pequenina à creche, olhando nervosamente o relógio do painel do carro, vendo os minutos passar, e o trânsito que não anda!

Cuidado, perigo ao volante! Porque nesses carros onde os meninos pulam no banco de trás, vêem-se por vezes os pais a gesticular, tentando controlar o comportamento das crianças. Enervados, parecem estar à beira de descarregar na condução a tensão que o início atribulado de cada dia lhes provoca.

Sigo devagar atrás desse carro com aviso no vidro e me apela a ter cuidado, onde uma menina de dois anos, de chupeta na boca, de pé no banco de trás, me diz adeus!

(publicado no Açoriano Oriental a 3 Março 2008)

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