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07
Mar18

A igreja e as mulheres

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É quase inevitável falar de igualdade entre homens e mulheres por altura do dia 8 de Março, apesar de hoje este tema fazer parte da agenda política e despertar consciências em muitos meios, como aconteceu recentemente no mundo do cinema.

Despertar consciências é sempre o primeiro passo para se denunciar injustiças. Sem essa visibilidade consciente, as desigualdades continuarão a fazer parte da cultura, dos modelos de educação, porque "sempre foi assim".

Recentemente, a denúncia veio de dentro da igreja católica. Religiosas italianas, sob anonimato, deram voz às injustiças a que são sujeitas, num artigo publicado na revista Donna Chiesa Mondo, do jornal oficial do Vaticano, Osservatore Romano. Falam de subalternização, servindo refeições em mesas onde nunca tem assento, encarregues de tarefas domésticas ao serviço de bispos, párocos ou instituições religiosas, onde apenas os homens tem poder, e onde nunca existem mulheres consagradas em órgãos de decisão.

São religiosas, é certo, que fizeram voto de pobreza e decidiram entregar as suas vidas a diferentes causas, mas continuam a ser mulheres, pessoas com dignidade. E, aparentemente, há membros e organizações dentro da igreja católica que as tratam como se a liberdade e a democracia tivessem passado ao lado dos templos, dos seminários e dos conventos.

Este é outro dos muitos temas, ditos fraturantes, ao qual o Papa Francisco deu visibilidade, ao nomear recentemente três mulheres para cargos de responsabilidade na Cúria romana. No entanto, apenas uma dessas pessoas é religiosa, a irmã Nicoletta Spezatti, nomeada Diretora dos Museus Vaticanos desde 2017.

Muitas outras religiosas são secundarizadas na estrutura de poder da igreja, porque a condição social da mulher continua associada a papéis desvalorizados.

Limpar o chão, varrer, lavar a loiça e as panelas, cuidar da roupa ou fazer as camas, são tarefas necessárias mas repetitivas e rotineiras, às quais não se dá valor, quando estão feitas. Por isso, o grande problema da invisibilidade do trabalho feminino, não pago, que durante décadas enterrou as mulheres na vida doméstica como um destino sem saída, passa pela falta de consciência de que a vida, em comunidade, seja numa família ou numa instituição, depende da forma como gerimos o quotidiano e do reconhecimento que todas as tarefas nos merecem.

As tarefas, ditas domésticas, são um espaço de partilha a descobrir, sobretudo pelos homens que delas se afastaram. São tarefas invisíveis, que ninguém valoriza, mas que sobrecarregam, diariamente, a vida de muitas mulheres.

"Agora mesmo acabei de passar a roupa, e a gaveta já está feita numa revolução, de blusas amarrotadas, anulando horas de trabalho". "Quando tinha acabado de arrumar a cozinha, entraram pela porta dentro com as botas enlameadas, deixando marcas no chão".

São dois mundos em conflito, um que trabalha nos bastidores e outro que se apropria desse trabalho sem se dar conta. Enquanto todos não tomarem consciência dessa dualidade, dificilmente haverá mudança que pacifique essa relação. Uma mudança que passa, obrigatoriamente, pela partilha, reconhecimento e igualdade de oportunidades.

As religiosas, que denunciam a sua condição na igreja, são mulheres de profunda espiritualidade, algumas com formação superior, a quem a Igreja devia dar visibilidade e poder.

A igreja católica tem de se transformar por dentro. É fundamental que a comunidade dos crentes partilhe e promova a democracia. Só a igualdade de oportunidades, entre homens e mulheres, pode combater as injustiças que a história e o poder masculino criaram dentro desta instituição.

A espiritualidade não tem género, por isso, as mulheres não podem calar a sua voz na igreja.

 (texto publicado no jornal Açoriano Oriental, 6 março 2018)

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