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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Carnaval

Terça-feira gorda! Gorda de fritos, de excessos e de fantasia. Gorda de folia e diversão. Segundo a Antropologia, o carnaval é tempo de transição que liberta os fantasmas, guardados no sótão das comunidades, escondidos nos bastidores das vidas organizadas. Como diz o povo, "é carnaval, ninguém leva a mal!" Porque, levar a mal seria julgar segundo normas e expectativas habituais. Mas, no Carnaval a regra é outra, a da expressão exagerada das emoções e até da crítica social, com efeito terapêutico sobre o stress, a contenção e algum individualismo que isola e afasta.

Basta olhar as culturas que mais intensamente vivem este tempo, como no Brasil, e ver o povo na rua, dando asas à emoção, nem sempre controlada, porque demasiado contida e massacrada pelas vidas difíceis e sofrimentos diários.

O carnaval é um tempo entre tempos, que marca no calendário o fim do inverno e antecede a chegada de um novo ciclo natural.

Sempre ouvi dizer que neste dia devemos podar roseiras e videiras. Podar é essencial para reorientar o crescimento das plantas, devolver-lhes vigor e eliminar galhos desnecessários que acabam por enfraquecer a estrutura central e não contribuem para a floração e a frutificação.

Ao mesmo tempo que a terça feira de carnaval liberta as emoções, despenaliza as transgressões, simboliza a possibilidade de regenerar a vida. O ser humano precisa dessas transições para reencontrar sentido, vigor, e ser capaz de enfrentar um novo ciclo na sua existência.

É carnaval, do fundo das arcas e dos armários saem as fantasias de princesa e de polícia, as vestes de palhaço ou as figuras da banda desenhada. As máscaras são mais uma oportunidade para libertar emoções. Escondidos por detrás do disfarce, vestidos de um "outro qualquer" fica mais fácil gritar, rir e até dançar. Os tímidos tornam-se extrovertidos, os medos são exorcizados e os corpos movimentam-se, sem receio, ao som do batuque de um samba, que ecoa por todo o lado.

A própria palavra carnaval tem origem na junção de duas palavras "carne" e "levar", ou melhor dizendo, "adeus à carne", lembrando a abstinência que marca o dia seguinte, quarta-feira de cinzas.

Estão reunidos os ingredientes que fazem do Carnaval um tempo diferente: o excesso, a folia, a máscara e a inversão de regras e papéis. Ao mergulhar no outro lado da existência, os adultos retomam o espírito das crianças, aliás testemunhado na frase "brincar ao carnaval", e afastam-se dos seus papéis diários, encarnando a pele de outros personagens e exorcizando alguns fantasmas ou frustrações.

Há muito que a sociologia encontrou no teatro e na definição de papel uma perspectiva de análise do quotidiano. Na prática, todos os dias encarnamos papéis, fazemos por vezes "de conta" e, nem sempre, integramos esses disfarces de forma coerente e saudável. Há mesmo quem passe a vida a mostrar quem não é, a fazer de conta que é feliz, quando preferia estar noutro lugar ou posição.

O Carnaval pode reconciliar a sociedade consigo própria. Libertando tensões, cria um tempo de catarse, que depois dá lugar ao recomeço. Alguns terão de aproveitar para podar aqueles galhos inúteis, libertar a vida do desnecessário, para melhor fortalecer a pessoa que são, ou querem ser, no novo ciclo que se aproxima.

Bom carnaval!

(publicado no jornal Açoriano Oriental 4 março 2019)

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