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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Duas vezes somos crianças

Nada mais errado do que dizer, "duas vezes somos crianças".

Com base nesta ideia, não se reconhecem capacidades na fase mais avançada da vida e ocupam-se as pessoas mais velhas com atividades de criança: colorir desenhos, recortar formas ou, simplesmente, ficam esquecidas/adormecidas diante de um televisor ligado.

A velhice não é uma segunda infância. É um tempo onde o envelhecimento se manifesta de forma mais evidente, nas perdas auditivas, visuais ou de mobilidade. Mas, nenhuma dessas alterações compromete as memórias, a vontade de viver ou a capacidade cognitiva ou artística.

Cada vez há mais pessoas que chegam a idades mais avançadas. E se pensarmos no futuro, a população portuguesa será ainda mais grisalha, a fazer fé nos números da natalidade e no aumento da esperança média de vida. Chegar aos setenta ou aos oitenta deixou de ser uma "sorte", para passar a desígnio de muitos. Por isso, as instituições, os serviços, que cuidam e atendem pessoas mais velhas, precisam de "reciclar" o conceito de velhice e o modo como, muitas vezes, atendem as pessoas mais velhas.

Parece anedota, mas acontece ouvir um empregado num comércio falar mais devagar com um idoso, como se ele não entendesse português ou tivesse dificuldade em acompanhar um discurso normal. Em outras ocasiões, aumenta-se deliberadamente o tom de voz, pressupondo que, se alguém tem mais de 65 anos, já deve ser surdo, esquecendo que muitas dessas pessoas utilizam aparelhos auditivos.

A velhice é cada vez menos um tempo para ser desperdiçado ou mal utilizado. Afinal, se a esperança média de vida, atual, prevê mais 15 anos após a idade da reforma, então há muito tempo para ocupar em novas experiências, manter-se autónomo e realizar sonhos, tantas vezes adiados.

Os idosos gostam de ser a retaguarda dos filhos, quando cuidam dos netos. Mas há que respeitar os seus tempos, as atividades que lhes dão prazer, e não comprometer essa "agenda" com demasiadas obrigações. Afinal, os anos passam a correr e pode acontecer que os últimos até não sejam os melhores, em termos de saúde. Por isso, é importante concretizar projetos, quando ainda se sente forças, vontade e se tem os recursos adequados para tal.

Fazer projetos? Dirão alguns, é coisa de jovens, de quem, supostamente, tem a vida toda pela frente. Não é verdade.

Um projeto não precisa de ser de grande monta; acabar aquela toalha bordada ou organizar a coleção de selos; ler os livros que ficaram na estante ou limpar os canteiros do jardim. Tudo pode ser um projeto. Fazer uma caminhada ou nadar trinta minutos, visitar um amigo ou ir ao cabeleireiro.

A vida só faz sentido quando vivemos cada momento, com significado.

Os mais velhos não perderam esse sentido, antes pelo contrário. Agora que percorrem a última etapa da vida, olham para o caminho com serenidade, recolhem a sabedoria acumulada e, só não a partilham, quando são tratados como crianças ou excluídos das decisões coletivas, supostamente, porque não lhes interessa a atualidade.

Mesmo que voltem às papas, por faltarem os dentes; às fraldas, por estarem incontinentes ou às letras aumentadas, porque a vista não ajuda, nada disso define a velhice.

Apenas o tempo, o saber e o percurso vivido importa.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental a 30 outubro 2018)

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