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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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É carnaval, vai uma malassada?

Quando a agricultura ditava o calendário, a terra definia os tempos, as festas e até as comidas.

Havia um tempo de escassez, o inverno, e um tempo de fartura, que coincidia com as colheitas.

Mas, as populações sempre se prepararam para as agruras do inverno, fazendo conservas, salgando alimentos, matando o porco e guardando carnes e enchidos na banha. Nas toldas de milho, as maçarocas acondicionadas em forma de telhado, amarradas em mancho eram a certeza de pão, enquanto nos celeiros se acondicionava o trigo.

A terra ditava o tempo, as tarefas, e as vidas organizavam-se para tirar dela o sustento. Um quotidiano, que se rompia com as festas.

Ainda hoje, apesar de longe do ciclo natural, as comunidades vivem a festa como uma paragem na rotina, a alteração dos hábitos quotidianos.

Na festa, espera-se fartura e nada melhor do que a gordura e os fritos.

Assinalando a véspera de um período de abstinência que a igreja associou à Páscoa, o Carnaval é um tempo de fartura, de folguedo e de excessos.

Nos Açores, muito antes da terça-feira, as malassadas, os sonhos, os coscorões ou as rosas do Egito lembram o tempo das partidas, da brincadeira e da exteriorização ruidosa, que irá ter o seu momento forte na terça-feira gorda.

O carnaval enquadra-se nesse calendário, que herdamos dos nossos antepassados. Um calendário onde a escassez do inverno, o rigor do trabalho agrícola, faziam deste tempo, um período de incerteza, que aguarda a fartura das colheitas.

Mas se hoje, a grande maioria de nós já não vive ao ritmo da natureza, não há dúvidas que o carnaval continua a funcionar como um tempo diferente, que rompe com a rotina, as normas e a postura séria dos outros dias.

Este é o tempo de brincar, de se mascarar e divertir em grupo.

É o tempo da folia, do folguedo, das danças de carnaval, dos estalinhos e das partidas.

Infringir as regras satisfaz o gosto de poder “pisar o risco”, limite do permitido. Uma infração que, neste tempo, é aceite, “ninguém leva a mal”.

O ser humano precisa de se olhar de fora, como quem se vê fora dos padrões, das regras e dos comportamentos esperados. Esta anarquia e alienação, podem funcionar como descompressão. E, nesse sentido, o carnaval pode ser um escape para alguns. Esse é o sentido tradicional para as comunidades, um tempo que rompe com o instituído, o estabelecido. Um tempo delimitado, curto, intenso que contrasta com a rotina, e sobretudo, que contrasta com a abstinência e o silêncio da meditação que os cristãos associam à quaresma que se inicia logo a seguir, na quarta-feira de cinzas.

Precisamos todos de nos libertar das tensões e nada melhor do que a brincadeira, algum excesso e o convívio em grupo para nos fazer rir. Rir é o melhor remédio para combater o sentimento de frustração ou de insatisfação com o quotidiano. Rir é olhar com outros olhos a vida dura que levamos, não para a desvalorizar, mas para nos fazer ter uma atitude menos obcecada, menos dramática. Soltando essas emoções negativas, conseguimos nos distanciar dos problemas e adotar a melhor atitude para os enfrentar.

O carnaval pode ser um tempo para olhar com outros olhos a vida, recuperando a energia necessária para enfrentar as dificuldades, desvalorizando esse lado sério que faz alguns esquecer de sorrir, que nem bom dia dão aos colegas de trabalho, ignorando quem passa na rua, como se carregassem todos os sofrimentos do mundo.

Se ninguém leva a mal, então que haja diversão no carnaval. E já agora, vai uma malassada?

Bom carnaval.

(texto lido no programa de Graça Moniz, "Entre Palavras", de 1 Fevereiro 2015).

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