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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Écran indiscreto

Quando Hitchcock idealizou o filme de suspense "Janela indiscreta" estava longe de pensar nos milhares de janelas virtuais que hoje permitem vasculhar na vida alheia.

Bisbilhotar na vida alheia é uma prática tão velha quanto a própria humanidade. Ouvir as conversas dos outros, tirar ilações de comportamentos ou falar de quem não se conhece, são práticas correntes que até fazem capa de revista.

Bisbilhotar é uma forma de se relacionar com o mundo e relacionar-se é uma necessidade humana.

O ser humano é relacional por natureza, não sobrevive sem contactar com outros. Comunicar é como respirar, está na base da construção das sociedades, das famílias e do viver em grupo.

Não será de estranhar o sucesso das denominadas "redes sociais", particularmente o "facebook". Ligar-se a estas redes encaixa, de forma quase "natural", nessa necessidade de contacto e de comunicação.

Inicialmente criado para colocar em contacto uma comunidade de antigos colegas, rapidamente o "facebook" passou a ser uma enorme teia de relações virtuais, onde pessoas mais ou menos conhecidas, partilham informação pessoal numa cadeia onde a palavra "amizade" perdeu conteúdo e significado.

Esta rede transformou os écrans de computador ou de telemóvel em milhares de janelas que se abrem sobre a vida de dezenas, centenas de pessoas, com um simples click na palavra "gosto".

Se Hitchcock classificou de "indiscreta" a janela do seu filme, o que não serão esses milhões de pequenas "janelas", que hoje observam, registam e divulgam comentários sobre a vida dos outros, a cada segundo que passa.

As redes sociais transformaram o sentido da responsabilidade ética e alteraram a fronteira entre o privado e o público.

O que fazer com a informação partilhada? Não será certamente igual dizer "gosto" a uma foto de um apetitoso prato de comida, que alguém "postou" ("postar" substitui "colocar") na sua página, ou dizer "gosto" a quem acabou de perder um familiar e diz estar triste.

Hitchcock quis descobrir um crime a partir da observação de uma janela, mas o que fazer com tanta informação pessoal, íntima e do foro privado, que nunca seria vislumbrada de uma janela normal? Até que ponto essas novas janelas quebram o contacto com a realidade?

Não raras vezes, numa mesa de restaurante, não se ouvem conversas porque cada um observa a janela do seu telemóvel ou do "tablet" para se atualizar nas suas ligações, estar a par sobre os últimos "post", levantando os olhos só quando as crianças começam a brigar por causa de um jogo online.

Os dedos não se tocam, mas deslizam no écran.

Os olhares não se trocam, as pessoas mal se falam e quando o fazem é para partilhar a última informação que leram numa qualquer mensagem online.

Somos seres relacionais que necessitam de comunicar, mas desumanizamo-nos quando deixamos de sentir, tocar ou falar.

É aí, nesse mundo de afetos, que faz sentido a partilha do privado, do pessoal e do íntimo. Fora desse contexto, tudo se banaliza e se transforma em conversa "virtual" que se esfuma num segundo.

Da janela do meu quarto vejo a rua onde moro... ouço os pássaros ... o som das persianas que se abrem... e ouço o meu vizinho dizer, "está um dia lindo, vamos à praia".

É neste mundo que eu vivo...

(texto publicado no Açoriano Oriental de 11 Agosto 2015).

 

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