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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Empreendedorismo

O mundo ocidental descobriu o empreendedorismo como uma resposta à crise económica, mas também viu nesta nova teoria uma alternativa para a falta de saídas profissionais, que se colocam aos desempregados, sobretudo aos jovens que terminaram a sua formação.

Empreendedorismo, como quase todos os ismos, sendo um quadro de ação, é também uma ideologia centrada na capacidade de uma pessoa construir o seu próprio percurso, de forma independente, por iniciativa própria e, tanto quanto possível, com inovação que marque a diferença. Quem não ouviu falar de Bill Gates, Steve Jobs ou do jovem Zuckerberg, criador do facebook?

Mas será que há muitos por aí com um perfil semelhante?

Como todos os ismos, o empreendedorismo é muitas vezes usado sem moderação, panaceia para todos os males, que deve ser ensinado nas escolas como linguagem ou ferramenta para vingar na vida.

Há neste conceito, que apela à iniciativa própria, um lado perverso.

O sistema económico que não consegue, ou não quer arriscar, criar mais empregos, mais oportunidades, responsabiliza os desempregados, os candidatos a um primeiro emprego e coloca a "bola" no seu campo: "cria o teu próprio emprego, faz o teu negócio" ou como se ouviu recentemente dizer aos recém emigrados, "vem" que nós te ajudamos, com alguns milhares de euros. Isto, claro, mediante o interesse que o teu projeto tiver!

O sistema educativo, que nem sempre forma e reforça as competências de acordo com o mercado e a inovação necessária, responsabiliza os estudantes pelas escolhas académicas que fizeram e mesmo que os tenha preparado convenientemente, incita-os às experiências internacionais, à migração que os faz descobrir que há quem esteja interessado nas suas capacidades.

O sistema social, cada vez mais atomizado, perde o sentido de comunidade, destruindo as solidariedades tradicionais. Envelhecido, responsabiliza os que gostariam de ficar, mas que não tem recursos, a investirem em negócios, por sua conta e risco. Longe dos tempos da partilha de trabalho, "hoje lavro a tua terra, amanhã lavras a minha", os novos negócios ficam às costas de quem os cria.

E assim, o empreendedorismo, que se apresenta como a linguagem dos novos tempos, acaba por ser uma nova forma de individualismo.

A comunidade afasta-se, o apadrinhamento, que era um laço de solidariedade genuíno, perde qualquer sentido e até é tido por favorecimento, e o individuo, que quer contribuir para o desenvolvimento da sua terra, vê-se a braços com um desafio solitário, quase impossível de vencer.

O empreendedorismo, dependendo da criatividade e iniciativa individuais, deve ser encarado como um motor de desenvolvimento comunitário. Se assim não for, poucos se aventurarão em negócios, inovações ou mudanças, que podem representar uma mais-valia para a economia, as organizações ou mesmo as instituições públicas.

Não basta apoiar com fundos ou programas de incentivos, mesmo que associados a acompanhamento logístico ou técnico. O principal apoio passa pelo envolvimento da comunidade. Sem portas abertas e sem críticas construtivas, dificilmente algo de novo cresce. Não é isolando os empreendedores que se alimentam alternativas de iniciativa individual.

O empreendedorismo tem de ganhar um conteúdo colectivo, para poder transformar a nossa realidade económica e social e ser motor de desenvolvimento e crescimento sustentável.

(texto publicado no Açoriano Oriental de 21 Abril 2015)

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