Entre a Europa e a América
Os Açores estão no meio do atlântico, limite extremo da Europa, de olhos postos na América, que sempre viu como horizonte de sucesso. Até à adesão de Portugal à União Europeia, em 1986, os açorianos ouviam falar mais dos Estados Unidos e do Canadá, do que dos países europeus.
Não podemos esquecer os milhares de açorianos, que saíram das ilhas, sobretudo nas décadas de 60 a 80, e que construíram comunidades inteiras em alguns estados americanos.
No imaginário destas ilhas, ficaram gravadas as histórias de quem emigrou num pequeno barco ou nas asas de um avião, heróis que arriscaram a vida para chegar ao “eldorado” americano.
Entre dois continentes, a Região Açores foi plataforma militar, no tempo da IIª guerra mundial, com relevo especial durante a Guerra Fria. O investimento nas bases militares não visava, propriamente, o desenvolvimento das populações locais, mas a concretização de planos de defesa e controlo do espaço, no quadro da geopolítica e geoestratégia mundiais.
Nos primeiros anos de autonomia democrática dos Açores, o financiamento que decorreu da utilização da base das Lajes teve um peso significativo.
Quando Portugal aderiu à União Europeia, a relação assumiu outros contornos e o reconhecimento das fragilidades das regiões insulares portuguesas, começou a entrar nas prioridades de financiamento. Desde logo, foram transferidas verbas para reforçar a formação profissional, das quais ainda hoje a região depende (o Fundo Social Europeu). Os estudantes açorianos descobriram o programa Erasmus e, desde então, dezenas de jovens, e também professores, têm tido contactado com outras realidades académicas e profissionais. Sabemos todos que estas oportunidades têm por vezes um custo elevado, porque alguns acabam por ir trabalhar nesses países, atraídos pelas oportunidades e o nível de vida.
No domínio ainda do reconhecimento europeu, a região viu reforçados os apoios à agricultura, à pesca e à indústria. Mais recentemente, têm sido disponibilizadas verbas para reforço da sustentabilidade, apostando nas energias alternativas e no combate às alterações climáticas. E, esse é um desafio que a Região pode e deve agarrar, com vista à sua autonomia energética. Imaginemos a ilha das Flores, completamente autónoma ao nível da energia, sem depender do abastecimento de gás ou gasóleo.
O futuro pode ser mais “verde” nos Açores.
Os fundos europeus, dos quais os Açores têm beneficiado nestes últimos quarenta anos, têm promovido uma relação diferente da Região com a Europa, e o facto de hoje integrarmos as denominadas “regiões ultraperiféricas”, não nos diminuiu, antes permite um reconhecimento diferenciado da realidade continental, essa metrópole que já nos designou de “ilhas adjacentes”.
A ligação à Europa está cada vez mais forte e a sua importância é frequentemente recordada, quando os governantes referem “com o apoio do PRR”, um fundo criado após a pandemia para ajudar a (re)erguer os países e as regiões, em termos estruturais.
Somos uma região atlântica, ultraperiférica, onde o “sonho americano” também chegou. Infelizmente, muitos dos emigrantes que o sonharam, enfrentam hoje o risco de “deportação”; por não terem a cidadania americana, são “dispensáveis".
O nosso “coração balanceia” entre o sentimento de sermos europeus, partilhando valores de solidariedade e respeito, e a ligação afetiva com o povo americano, sensíveis aos efeitos das políticas disruptivas da atual administração americana, aparentemente indiferente aos valores europeus, consagrados universalmente na carta dos direitos humanos e na própria constituição dos EUA.
(texto publicado a 7 março no jornal Açoriano Oriental)