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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Futebol de primeira

Os Açores estão de novo representados na primeira liga de futebol, modalidade que recolhe a maior adesão de apoiantes, quando comparada com outras, por ventura mais exigentes do ponto de vista físico ou até técnico.

Este é um desporto popular, cuja arbitragem é hoje assessorada por meios técnicos, podendo o árbitro parar o jogo, quando tem dúvidas. Para tal desenha no ar um quadrado e todos ficam a saber que foi consultar o vídeo-árbitro.

Nas bancadas do estádio, milhares de olhos seguem a bola, gritam nomes, barafustam contra as decisões tomadas, apontam estratégias e opinam como se fossem treinadores.

Um jogo de futebol é um acontecimento cada vez mais participado, mas é também uma oportunidade para descarregar tensões, criticar em voz alta, envolver-se como anónimo numa massa que se comporta em uníssono, nos cânticos, nas palmas e no apoio à equipa local.

O Santa Clara permitiu trazer aos Açores equipas da primeira divisão e gerou-se uma maior expectativa quanto à sua capacidade para se manter entre os melhores clubes do país.

O estádio de S. Miguel ainda não tem todas as condições, mas ninguém ali entra, sem antes ser revistado.

Tampas de garrafas de água são retiradas, metais detectados e a segurança foi reforçada. Só há um aspecto que não mudou e talvez não mude.

Ninguém detecta, à entrada do estádio, as línguas afiadas e as palavras mais ordinárias.

Nas bancadas, o entusiasmo e a paixão parecem maiores do que a educação ou o saber estar.

Ainda num destes jogos, atrás de mim estava um avô com um neto. O neto, entusiasmado, repetia as frases de incentivo que ouvia. Só que o entusiasmo foi se transformando em raiva contra o adversário e começaram os palavrões.

O avô, atento, ralhou com o neto. "Tu não dizes palavrões, podes gritar pelo clube, mas é só!"

O neto, consciente de que outros, por perto, não tinham esse cuidado, insistiu: "avô, mas nem um só palavrão, um só!?"

Contrastando com o cuidado deste avô, outras vozes adultas, não se coibiram de gritar toda uma coleção de palavrões, dirigidos à equipa dos jogadores visitantes e ao árbitro da partida. A adrenalina parecia uma nuvem em volta destes adeptos, que se levantavam, batiam palmas, levados por um efeito multidão contagiante. À entrada tinham todos passado pelo detetor de metais, mas ninguém os impediu de entrar no campo, com frustrações, raivas contidas, vontade de descarregar a tensão e uma necessidade de sentir o gosto da vitória. Não é apenas a equipa que festeja quando ganha, milhares de adeptos saem do estádio a sorrir, satisfeitos, como se também eles tivessem ganho.

O futebol pela sua história, funciona como catalisador da identidade de localidades, vilas e cidades.

E não se julgue que gostar de futebol é apenas um assunto masculino. As mulheres estão, cada vez mais, a interessar-se e a praticar a modalidade e não precisam de "borlas" para acorrerem ao estádio.

O que talvez incomode é ouvir vozes desbragadas, gente que retira o freio e dá largas à língua, ao insulto e ao palavrão, como se não tivessem crianças por perto.

O futebol é um fenómeno de massas, mas o "fair play" que hoje se exige a todos os intervenientes diretos, tem de contaminar os adeptos nas bancadas e fora do estádio.

(texto publicado no jorna Açoriano Oriental de 4 setembro 2018)

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