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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Lado a lado

Para apregoar o ideal de igualdade, é recorrente os políticos referirem a necessidade de "não deixar ninguém para trás". Sem negar o mérito do propósito, há nesta frase uma segunda leitura, onde alguns, defendendo um determinado ideário ou projeto de sociedade, olham para "trás" e verificam que há quem não os acompanhe ou não tenha meios para atingir os mesmos objetivos. Assim, afirmam-se como os defensores dessas, supostas, minorias. Mas será que alguém perguntou a esses, que ficaram "para trás", se querem, concordam com as estratégias adotadas e/ou pretendem atingir esses objetivos em concreto? Será que alguém construiu esse projeto a pensar neles, nesses que não conseguem acompanhar o passo e manter o mesmo ritmo de passada?

O ideal nas relações não será certamente caminharmos todos ao mesmo ritmo ou orientados da mesma forma para determinados objetivos, mas antes, partilharmos os mesmos valores, no respeito pela liberdade e dignidade de cada um.

Esta frase faz lembrar outra, "por detrás de um grande homem, há sempre uma grande mulher", onde a relação de poder que subalterniza, mantem inalterada as desigualdades de género na vida familiar, no mundo do trabalho e na política.

Se queremos viver melhor nas famílias, nos casais ou na vida pública, não será impondo formas de estar que o vamos conseguir, mas sim quando o poder estiver ao serviço da construção de comunidades, onde todos se sintam parte integrante e possam partilhar e contribuir com o que são e tem de melhor.

Ao apregoarmos que "não deixamos ninguém para trás", assumimos, desde logo, as desigualdades, a distância que nos separa de outros, por vezes mesmo, o fosso que nos divide. Vejam-se os indicadores de pobreza, níveis de rendimento ou educacionais! Não interessa se o rendimento per capita é elevado, se a sua distribuição gera desigualdades profundas. Não interessa a riqueza produzida, se as escolhas económicas e políticas ignoram o impacto gerado no ambiente, na vida local ou no património, como se as populações mais desfavorecidas e os contextos locais fizessem apenas parte do cenário.

Uma visão política, com futuro, não pode apenas reconhecer a desigualdade, mas ter em consideração as razões que a constroem e mantêm como condição estrutural.

Por isso, ao invés de avançarmos, olhando pelo canto do olho "quem ficou para trás" ou pressupondo que alguém na retaguarda irá apoiar quem toma a dianteira, o ideal seria que caminhássemos lado a lado.

Lado a lado, iremos chegar mais longe na construção da democracia. Mais do que igualar, o ideal democrático dá oportunidades a todos, respeitando diferenças, num sentido de equidade.

Lado a lado, não implica pensarmos da mesma forma, mas significa que comunicamos e respeitamos a forma de pensar de cada um, procurando consensos e pontos de força, mantendo a união. Cada um incentivando o outro, quando falta confiança ou motivação, reconhecemos diferenças e encontramos, num projeto comum, a razão de ser para estarmos juntos.

Se esta fórmula dá longevidade às relações conjugais, certamente que também se aplica às sociedades. É bom saber que não queremos "deixar ninguém para trás", mas melhor seria se todos fizéssemos parte da construção, de um projeto que se quer comum.

Lado a lado, respeitamos a individualidade e construímos comunidade.  

(artigo publicado Açoriano Oriental de 9 julho 2019)

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