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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Memórias

A vida é um cais onde, todos os dias, chegam e partem pessoas.

Enquanto vivemos preocupados com os estudos, o emprego, as relações de poder ou os ganhos, nem sempre nos damos conta dessas movimentações e mal nos apercebemos das emoções que atravessam o cais da vida.

Não sabemos o dia nem a hora, mas quando nos cabe a vez, de olhar a partida de alguém que nos é próximo e querido, pisamos o cais de olhos alagados, acenando com um lenço branco, uma viagem sem regresso.

De coração pesado, procuramos no cais o baú das memórias.

Memórias de momentos, vivências, gargalhadas e tantos risos.

Tempos onde éramos mais crianças.

Na beira do cais, assistindo a mais uma partida sem retorno, sentimos quebrar um laço, dessa cadeia onde nos incluíram quando nascemos. Uma cadeia que refazemos sempre que outros chegam ao cais, para se ligarem às nossas vidas.

De olhos postos no baú das memórias, recordamos o tempo em que olhávamos os mais velhos da família, como os "grandes", os crescidos, com quem aprendemos a ser, a ter um nome, uma identidade, ouvindo as suas histórias que também eram a nossa própria história.

No cais da vida, reveem-se as memórias de vidas, sonoridades, imagens que nos transportam para outros lugares e outros tempos.

Embrenhados nesse regresso ao passado, a boca enche-se de sabores antigos, de temperos, e as narinas parecem inspirar cheiros e aromas.

O tempo fica congelado e tudo se torna diferente na memória de um segundo, onde não há partidas, nem chegadas, mas apenas vivências.

Memórias. Quando nos despedimos de alguém que parte, para não mais regressar, fica no cais da vida um baú de memórias, um livro de uma vida, uma roupagem diária. Afinal, tudo o que importa para os que ficam no cais está ali.

Missão cumprida, viagem agendada por quem não pergunta se temos ou não disponibilidade para a fazer. É hoje, agora.

E quando menos se espera, abandona-se o baú das memórias, o livro escrito durante anos, que outros julgavam ter mais páginas para escrever; acabam-se as rotinas de simpatia e atenção ao outro: bom dia Sr. João!

No cais, na hora da despedida, são muitos os que folheiam o livro e encontram os traços mais fortes dessa história. Momentos de dor, mas também de força, palavras sensatas e alguns desesperos. Laços feitos e desfeitos, palavras ditas ou silenciadas que lemos, em memória, para fazer a memória de alguém.

Afinal, o que é a vida se não encher um baú de memórias, que se partilham com outros, para depois deixar no cais. O que é a vida se não encher um livro de vivências, umas de dor outras de alegria, umas ponderadas e calmas outras intensas e emotivas, e abandonar tudo isto na hora da despedida.

No cais da partida, não é preciso bagagem, nada é preciso, nem mesmo o baú das memórias ou o livro escrito numa vida.

Aos que ficam no cais sim, essa é uma herança preciosa, para que possam retomar a cadeia de laços, e continuar a construir família.

Para os que ficam essas são as memórias, que não se perdem e que, mesmo perdendo a cor, que o tempo sempre retira às imagens, continuam sendo parte do laço que um dia nos recebeu à chegada, quando alegres nos acolheram.

No cais da vida, há sempre alguém que parte, deixando atrás um baú de memórias e um livro escrito, uma vida.

 (texto publicado no Açoriano Oriental, 10 Março 2015)

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