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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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O género da polémica

Que a natureza integra o feminino e o masculino e que estas duas dimensões estão na origem do processo reprodutivo, de quase todos os seres vivos, ninguém o nega. Mas, que essa diferença, complementar, se transforma em desigualdade social, nem todos o admitem. A desigualdade de género, não sendo natural, acaba por ser ensinada desde o berço e infiltra-se nas relações e no quotidiano, de tal forma, que dificilmente nos apercebemos o quanto está impregnada nas nossas vidas.

É preciso olhar com detalhe, rever comportamentos habituais para reconhecer o modo como, ainda agora, se educam os meninos e as meninas de forma tão diferente. Uma diferença que está para além da questão sexual, mas que determina os papéis que lhes atribuímos. Seja nos brinquedos ou nas brincadeiras, nas tarefas domésticas ou na decoração dos quartos, há uma imagem fabricada e reproduzida, do azul e cor de rosa, dos carrinhos e das bonecas, do futebol e do ballet.

Mais do que imagens, que dividem materiais escolares, pintam as capas dos cadernos e separam os brinquedos dos catálogos comerciais, o que constrói a desigualdade são as relações entre homens e mulheres e o modo como estruturam a identidade dos jovens, que não tardam a ser adultos.

É importante que nos preocupemos com essa educação, com o facto de o ensino secundário ser frequentado por mais raparigas do que por rapazes, e as universidades estarem dominadas por estudantes do sexo feminino.

Olhemos o modo como alguns pais "castigam" um filho, que "não dá nada na escola", "é preguiçoso" ou "voltou a chumbar", com um trabalho de verão, "para aprender o que custa a vida!"; enquanto se for uma filha, impõem-lhe as limpezas da casa.

O mundo da casa e os cuidados à família continuam a ser ensinados como "obrigações" femininas, enquanto os jovens rapazes são orientados para empregos "com barba", longe das preocupações familiares.

O género está demasiadamente impregnado na língua portuguesa, para que o combate à desigualdade se possa vencer com debates a propósito de "cadernos de exercícios, azuis e cor-de-rosa" ou do recurso à designação "chefe de família" de uma candidata autárquica.

A paridade não se alcança nesses debates de pormenor, nem o conceito de género alguma vez significou anulação de diferenças.

A questão central reside no facto de a condição biológica, de quem nasce masculino ou feminino, não determinar as ambições pessoais ou sociais, nem definir graus de inteligência ou aptidões.

Os exemplos são cada vez mais frequentes, sobretudo, porque os lugares onde se investe nas competências, escolas e universidades, estão a ser deixados às mulheres. E isso não é salutar, nem positivo, sobretudo, quando há quem considere a qualificação no feminino "complementar", desvalorizada no acesso ao mercado de emprego, enquanto no masculino continuar a ser um "passaporte" para empregos de sucesso, bem remunerados.

Uma sociedade que promove igualdade de género dá espaço aos jovens, rapazes e raparigas, para que se descubram como pessoas, pouco importa se é cor-de-rosa ou azul, e possam livremente escolher áreas de formação e empregos, ditos de homem ou mulher.

A reflexão que importa fazer e a mudança a concretizar, estão na forma como bloqueamos a livre expressão e realização do ser humano, reféns de modelos acabados, inadequados e impostos, do que "deve ser" um homem e uma mulher.

Enquanto pensarmos que a vida social se determina à nascença, a injustiça associada à desigualdade de género será uma realidade e as relações entre homens e mulheres serão palco de conflitos, tensões, porque incapazes de harmonizar a diferença num projeto comum.

 (artigo publicado no Açoriano Oriental de 5 Setembro 2017)

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