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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Comida saudável

Era nas festas que se comia carne! Nos casamentos e batizados, no dia do padroeiro ou nas festividades do Espírito Santo.

A gastronomia diária dos nossos avós, vivessem ou não no campo, era rica de muitos outros ingredientes. O feijão, guisado ou na sopa, a batata doce ou "inglesa", os inhames, os nabos e as couves. E, sempre que restava comida, fosse frango, grão cozido ou mesmo pão, era garantido que, no dia seguinte, havia aproveitamentos, a que chamavam de "roupa velha", migas, pastéis ou açordas.

A terra sempre ditou o que se podia comer, ao contrário de hoje, em que a importação de frutas e legumes faz esquecer o sentido das "novidades", os produtos da época, a estação do ano.

Mas, por muito bonitos e até encerados que estejam, os frutos importados não são melhores nem mais saborosos do que uma fruta da época, produzida na nossa terra, que cheira e amadurece na cesta, ao contrário das outras, do outro lado do mundo, guardadas em câmaras de frio, que rapidamente apodrecem.

Falar de alimentação saudável, legumes e frutas da época, produzidos na nossa terra, parece um discurso do passado, mas é cada vez mais atual e necessário, se queremos viver de forma saudável e ensinar os mais novos a cuidarem de si.

Muitas das nossas crianças e jovens torcem o nariz à sopa de legumes, não comem feijão ou qualquer outra leguminosa, rejeitam as couves e afastam a alface do prato. Os pais, em vez de insistirem, resolvem o problema satisfazendo o eterno desejo de batatas fritas, cobertas de molhos, indiferentes aos efeitos secundários na saúde infantil, incluindo a obesidade.

O poder de compra aliado ao baixo custo de produtos com elevadas percentagens de gordura e açúcares, faz encher carrinhos de compras com comida embalada, processada, "pronta-a-comer", de baixo teor nutritivo. Nas lancheiras dos filhos não há sopa, "que eles não gostam", nem fruta, "que não estão habituados a trincar". Mas não faltam bolachas recheadas, refrigerantes e batatas fritas de pacote.

A saúde está em causa e o equilíbrio da natureza também.

Para podermos defender o desenvolvimento da nossa região, temos de promover e consumir os produtos que a terra, tão generosamente nos dá. E, para isso, a nossa terra só precisa de ser trabalhada. Infelizmente temos "terras de pão" transformadas em pastagem, terrenos férteis abandonados, que podiam produzir legumes de qualidade, sem químicos, com todas as propriedades nutritivas que precisamos. Trabalhar a terra está longe de ser uma atividade menor, é um privilégio, uma bênção que devíamos apoiar e incentivar.

Não basta falar das alterações climáticas, é preciso reequilibrar a nossa relação com a natureza, comendo de forma saudável, reduzindo o consumo de produtos sem qualidade, que entopem as veias, aumentam os níveis de açúcar no sangue e reduzem a energia e os anos de vida.

Porque não recuperar a sabedoria dos nossos avós? retomar o velho hábito de comer sopa, reduzir o consumo da carne e, sobretudo, colorir o prato com verduras e legumes.

Se antes a carne era pouco frequente, uma comida de festa, hoje deveria ser uma escolha consciente, de quem reconhece que, numa alimentação saudável deve haver diversidade e qualidade.

Texto publicado no jornal Açoriano Oriental a 15 outubro 2019

 

Pela boca morre o peixe!

Infelizmente não só os peixes “morrem pela boca”. Muitos outros seres exageram, levados pela tentação de comer, pela precipitação inconsequente diante da possibilidade de viver um momento de prazer imediato.

No caso dos seres humanos, todos sabemos que o gosto, os sabores só são apreciados enquanto os alimentos vão da boca até à garganta. São breves segundos de prazer, em que se apreciam os aromas, se descobrem combinações e temperos e se aviva o paladar, de tal forma, que não raras vezes se fecham os olhos, para melhor apreciar a comida.

Degustar, como dizem os gastrónomos, é a arte de saber viver a experiência da descoberta e do sentir. A partilha de uma boa refeição pode ser o pretexto para uma boa conversa e se a culinária for típica de uma região, é certamente uma ocasião para descobrir a expressão de uma cultura, de uma comunidade. Comer pode não ser apenas a satisfação de uma necessidade básica e uma forma de combater a fome, mas uma fonte de prazer, uma ocasião de convívio e de descoberta.

A comida é mais do que o alimento, é também a expressão da diversidade de produtos e de temperos, de aromas e formas de cozinhar que identifica uma comunidade, uma família ou até uma pessoa. Mas o acto de comer pode ser uma forma de compensar e satisfazer outras necessidades, que não apenas a biológica. Há quem o faça na busca de um refúgio, porque está deprimido ou entende que a vida não lhe é favorável, busca no prazer de comer alguns segundos de emoção, sensações que provoquem uma satisfação imediata. Indiferente ao conceito de alimentação equilibrada, a comida torna-se numa armadilha de prazer; um veneno embrulhado em açúcar ou em sal; uma reserva calórica não queimada, que “aquece” a tristeza e contribui, pouco a pouco, para aumentar a inércia, a passividade e o sedentarismo.

Comer de mais em busca de prazer é uma tentação e uma fonte de desequilíbrio. Aos poucos a mente perde o controlo sobre o corpo, o desejo gera obsessão, a relação com os consumos substitui a relação com os outros e o prazer procura-se em segundos e não se dilata no tempo. Um passeio à beira-mar, uma tarde de leitura ouvindo os pássaros, dão lugar às jantaradas, a uns copos no bar da esquina e ao falso sentimento de prazer. O peixe mordeu o isco e tal é a sofreguidão que nem repara no anzol, até ao dia em que o não consegue evitar. Diabetes, problemas vasculares ou cardíacos, falta de forças e peso a mais, são algumas das consequências que o consumo alimentar desregrado vai criando, cada vez mais cedo, sobretudo em crianças e jovens.

Onde fica o meio-termo? Comer sempre foi e será uma fonte de prazer, de descoberta, porque a gastronomia enquanto expressão da identidade cultural, deve ser preservada na sua forma original. Todos reconhecem o valor dos produtos frescos, das confecções minuciosas, da arte de criar um prato, que faça de uma refeição uma viagem.

Será que temos de tornar a vida sem sabor para sermos saudáveis? Diz o povo que o que é demais não presta. E, em matéria de alimentação, essa é sem dúvida uma regra de ouro. Podemos comer de tudo, experimentar todos os produtos que a natureza e a arte de confeccionar podem propiciar, mas temos de saber parar! Porque pela boca morre o peixe e o exagero é o anzol disfarçado que não devemos ignorar.

(publicado no Açoriano Oriental de 9 Junho 2008)

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